O papel estratégico da transição na nutrição de ruminantes

A intensificação dos sistemas de terminação, especialmente em confinamento, exige a transição de dietas baseadas em volumosos para formulações com elevada densidade energética e maior participação de carboidratos não fibrosos. Essa mudança no padrão nutricional requer elevado rigor técnico, pois depende da adaptação da microbiota ruminal, com a substituição gradual da predominância de microrganismos celulolíticos por populações amilolíticas mais eficientes na fermentação do amido.
O fornecimento abrupto de dietas com alta inclusão de grãos acelera a fermentação dos carboidratos, aumentando a produção de ácidos orgânicos no rúmen e promovendo redução acentuada do pH ruminal. Quando essa adaptação não ocorre de forma adequada, o animal pode desenvolver acidose ruminal, distúrbio metabólico que compromete a integridade do epitélio ruminal, reduz a capacidade de absorção de nutrientes e prejudica o desempenho zootécnico. Nos casos mais graves, a acidose pode desencadear timpanismo, laminite e outras complicações metabólicas, resultando em perdas produtivas e econômicas significativas.
A literatura científica e as recomendações da Embrapa indicam a adoção de dietas de adaptação (step-up) por um período de 14 a 21 dias, conforme a categoria animal, o nível de concentrado da dieta e o sistema de produção. Esse período favorece o desenvolvimento das papilas ruminais, aumentando sua capacidade absortiva e preparando o trato digestório para o aproveitamento eficiente de dietas com maior densidade energética, preservando a integridade do epitélio ruminal.
A nutrição de precisão está diretamente relacionada à estabilidade do ambiente ruminal. Mesmo dietas de elevada qualidade nutricional e alto investimento podem apresentar baixo desempenho quando a saúde do rúmen é comprometida. O manejo nutricional estratégico busca maximizar o aproveitamento da energia da dieta, promovendo maior eficiência alimentar e convertendo nutrientes em Ganho Médio Diário (GMD) de forma consistente. A integração entre formulação nutricional balanceada, adaptação fisiológica do rúmen e manejo adequado da alimentação constitui a base para a eficiência biológica do confinamento e para a maximização do retorno econômico do sistema de produção.
*João Cortes é médico-veterinário e especialista em confinamentos na Biogénesis Bagó






