80 mil jacarés, frigorífico com SIF e couro para marcas de luxo: como o Pantanal transformou o jacaré em cadeia produtiva
Em Corumbá (MS), a Caimasul se apresenta como a maior fazenda e frigorífico de jacarés de cativeiro do mundo. A carne chegou à alta gastronomia, mas a empresa também enfrenta multa milionária por exportação de peles

A 30 quilômetros de Corumbá, às margens da BR-262, funciona um frigorífico diferente de qualquer outro do país. Em vez de bois ou frangos, as baias abrigam jacarés-do-pantanal (Caiman yacare). A Caimasul, empresa que cria, abate e industrializa o animal, se apresenta como a maior fazenda e frigorífico de jacarés de cativeiro do mundo. Segundo a Famasul, citada pela Gazeta do Povo, o empreendimento abriga cerca de 80 mil exemplares e tem capacidade para 240 mil.
Do ovo ao couro, com inspeção federal
O frigorífico foi inaugurado em 21 de setembro de 2017, com a presença do então ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e do governador Reinaldo Azambuja. Com investimento de R$ 30 milhões e capacidade para abater até 600 animais por dia, segundo o Campo Grande News, o complexo reúne toda a cadeia: cria, recria, engorda e abate com certificação do Serviço de Inspeção Federal (SIF), além da transformação em carne e couro, de acordo com o Agrolink.
A estrutura inclui baias separadas por tamanho, curtume, fábrica de ração feita com miúdos bovinos e farinhas, loja de artesanato e estação de tratamento de efluentes, segundo o CompreRural. Como o tempo até o abate é de cerca de dois anos, a criação começou em 2015, antes da inauguração do frigorífico.
Da caça clandestina à proteína regulada
O jacaré-do-pantanal já foi alvo de caça ilegal para o comércio de peles. Hoje, a produção legal depende de licenças ambientais e de autorização do Ibama, e a criação em cativeiro é apontada pelo setor como alternativa para gerar renda sem pressão sobre os animais da natureza. Segundo o veterinário responsável pela Caimasul, Eduardo Borges, ouvido pela Gazeta do Povo, a dieta balanceada garante carne macia e couro de alto padrão, o que diferencia o produto do abate ilegal.
Do Pantanal para restaurantes e grifes
A carne, de textura descrita por consumidores como intermediária entre peixe e frango, chegou à alta gastronomia. O chef Alex Atala incluiu jacaré fornecido pela Caimasul em menu degustação, segundo o Campo Grande News. O couro é o produto mais valioso e abastece o mercado de luxo, com Estados Unidos, Europa e México entre os importadores, de acordo com a Gazeta do Povo.
O modelo começa a se espalhar. Em Porto Feliz (SP), um frigorífico de jacarés-de-papo-amarelo migrou da inspeção estadual para a federal e se tornou o segundo do país com SIF, o que permite vender em todo o território nacional. O veterinário do Mapa responsável pela inspeção foi treinado em Corumbá, segundo o Canal Rural.
O lado polêmico
O negócio também enfrenta questionamentos. Em novembro de 2024, a fazenda recebeu multa de R$ 44,2 milhões por exportação irregular de 44.253 peles salgadas de jacaré, segundo o Campo Grande News. A empresa considerou a multa infundada, mas reconheceu que a exportação pode ter excedido o limite previsto em sua licença.
O que o caso ensina
A Caimasul mostra que uma proteína exótica pode virar cadeia produtiva com inspeção, rastreabilidade e mercado externo. Mostra também que, por envolver fauna silvestre, a atividade depende de licenças rigorosas e de fiscalização constante. É um nicho pequeno, mas que agrega valor ao Pantanal e testa os limites entre produção e conservação.





