Primeiro zebu a chegar ao Brasil e sobrevivente da grande seca de 1978 a 1983: por que o Guzerá voltou a interessar o pecuarista?
Trazida da Índia no século 19, a raça puxou carroças de café, dominou a primeira fase do zebu no país e provou sua rusticidade no sertão. Hoje tem dupla aptidão, recordes de leite e exporta touros de avião para a África

Antes de o Nelore dominar os pastos brasileiros, foi outro zebu que abriu caminho. O Guzerá foi a primeira raça zebuína a ser introduzida no Brasil, trazida da Índia pelo Barão de Duas Barras, por volta de 1870, segundo o CompreRural. Nos primeiros anos, os animais trabalharam nos cafezais do Rio de Janeiro, puxando carroças e vagões de café.
Uma raça milenar
Conhecido na Índia como Kankrej, o Guzerá é considerado uma das raças zebuínas mais antigas do mundo. Representações do animal aparecem em artefatos de ouro, esculturas e moedas de diferentes épocas expostos no museu de Bagdá, no Iraque, de acordo com o CompreRural. A pelagem varia do cinza-claro ao escuro, e os chifres longos em forma de lira são uma das marcas da raça.
No Brasil, o Guzerá dominou a primeira fase do zebu, entre 1870 e 1920, graças à adaptação ao clima tropical. Depois, perdeu espaço para outras raças zebuínas, especialmente o Nelore, que se tornou a base do rebanho de corte do país.
A prova da seca
O momento que consolidou a reputação do Guzerá no Nordeste foi a grande seca de 1978 a 1983, que dizimou parte do rebanho regional. Segundo o CompreRural, a estiagem comprovou a superioridade da raça em resistência, já que os animais conseguiram superar as condições climáticas melhor do que outros grupos. A capacidade de enfrentar longos períodos sem água e com pouco alimento, somada à resistência a doenças e carrapatos, tornou a raça referência para o semiárido.
Carne e leite no mesmo animal
Hoje, a principal vantagem destacada pelos criadores é a dupla aptidão. O Guzerá produz carne e leite mesmo em ambientes adversos, e linhagens leiteiras vêm ganhando espaço. Uma vaca da linhagem GenBra, chamada Alkaia, chegou a produzir 38,2 quilos de leite em pesagem oficial da ABCZ ainda na primeira lactação, superando o recorde de torneio para fêmeas jovens, segundo o CompreRural.
A raça também é usada em cruzamentos. Desde o início da história do zebu no Brasil houve cruzamentos com o gado holandês, e o chamado Guzolando volta a aparecer como ferramenta para enriquecer o sangue do Girolando. Com o Nelore, o cruzamento deu origem ao Guzonel, cujos primeiros registros pela ABCZ começaram em 2013, segundo o Canal Rural.
Tamanho do rebanho e mercado externo
Segundo levantamento da ABCZ citado pelo CompreRural, o Guzerá tinha mais de 450 mil animais registrados, cerca de 4% do plantel de zebuínos do país. Em uma das maiores exportações da história da raça, 310 touros de 15 criatórios brasileiros embarcaram de avião, a partir do aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), com destino ao Senegal, operação celebrada pela ABCZ e pela Associação dos Criadores de Guzerá do Brasil.
Por que voltou ao radar
Com o clima mais irregular, o custo alto da suplementação e a busca por animais que produzam em pasto, características como rusticidade e dupla aptidão voltaram a ter valor. O primeiro zebu do Brasil, que quase saiu de cena com a ascensão de outras raças, vive um momento de renovado interesse entre pecuaristas de leite e de corte, como registrou o Agrolink.





