A ovelha que não precisa de tosquia: como a Santa Inês, criada no sertão, se espalhou pelo Brasil
Raça deslanada nascida no Nordeste do cruzamento de carneiros italianos com ovelhas nativas, a Santa Inês combina adaptação ao calor, boa habilidade materna e um marcador genético ligado a partos múltiplos

Quando se pensa em ovelha, a imagem mais comum é a de um animal coberto de lã. No Brasil tropical, porém, uma das raças mais importantes para a produção de carne não tem lã. A Santa Inês é uma raça deslanada, com pelos curtos, que dispensa a tosquia e se adapta ao calor, característica decisiva para quem cria no Nordeste, no Centro-Oeste ou no Sudeste.
Uma raça feita no sertão
A Santa Inês é nativa do Nordeste brasileiro. Segundo trabalho da Embrapa, a raça descende do cruzamento de carneiros da raça Bergamácia, de origem italiana, com ovelhas crioulas e da raça Morada Nova, também nordestina. O resultado foi um animal de porte médio a grande, sem chifres, de várias cores de pelagem, com dupla aptidão para carne e pele, de acordo com trabalho da Universidade Estadual de Goiás.
O trunfo reprodutivo
O que tornou a Santa Inês atraente para o produtor foi a reprodução. As fêmeas são descritas como prolíferas e com boa habilidade materna, e pesquisadores identificaram na raça um marcador genético responsável pelo aumento de partos múltiplos, segundo publicação da Embrapa. Em ovinocultura de corte, mais cordeiros por ovelha por ano significam mais carne vendida com o mesmo rebanho de matrizes.
A raça também é apontada como resistente a parasitas gastrointestinais, um dos principais problemas sanitários da criação de ovinos, segundo o CompreRural, e apresenta maior velocidade de crescimento entre as raças deslanadas do Nordeste, de acordo com estudo publicado pela Embrapa.
Do Nordeste para o país
A Santa Inês não ficou restrita à região de origem. Publicação da Embrapa registra que, em estados do Centro-Oeste e do Sudeste, raças lanadas de grande porte vinham sendo substituídas pela Santa Inês justamente por suas características reprodutivas. Hoje ela é encontrada em todas as regiões do país e costuma ser usada também como base materna em cruzamentos com raças especializadas em carne, como a Dorper.
Conservando a origem
Com a seleção para animais cada vez maiores, a Embrapa mantém três núcleos de conservação da Santa Inês tradicional, de menor porte: em Sobral (CE), em Campo Maior (PI) e em Queimadas (SE). A ideia é preservar características que podem ser resgatadas no futuro, como a rusticidade original.
Por que importa agora
O Brasil chegou a 22,3 milhões de ovinos em 2025, recorde da série do IBGE, e ainda assim a procura por carne ovina supera a oferta em vários estados, como Santa Catarina, onde frigoríficos não conseguem atender os pedidos. Para quem pensa em entrar na atividade, raças adaptadas e prolíficas como a Santa Inês são parte da resposta para produzir mais cordeiros com menos custo de manejo.





