Algodão sobe mais de 4% em Nova York e contratos de 2027 rompem os 90 cents por libra
Contrato dezembro ganhou 3,55 cents em uma semana, compromissos de exportação dos EUA estão 31% acima do ano passado e colheita avança no Brasil; movimento forte, porém, já começou a enfrentar realização de lucros.

O algodão voltou a chamar atenção do mercado internacional.
Depois de fechar a semana anterior a 84,80 cents por libra, o contrato dezembro/2026 saltou para 88,35 cents na sexta-feira, 21 de agosto.
Foi uma valorização semanal de 4,19%, equivalente a 3,55 cents por libra.
Os vencimentos mais longos avançaram ainda mais em termos nominais.
Março de 2027 terminou a 90,15 cents por libra e maio fechou a 91,19 cents.
Ou seja, o patamar de 90 cents citado como possível alvo no briefing já foi atingido por parte da curva futura.
Exportações dos EUA ajudam a sustentar o mercado
Um dos fundamentos mais relevantes veio da demanda.
Dados divulgados pelo USDA em 20 de agosto mostram que os compromissos de exportação do algodão upland norte-americano na temporada 2026/27 alcançaram 4,235 milhões de fardos.
O volume é aproximadamente 31% maior que o observado no mesmo período do ciclo anterior.
Somente na semana encerrada em 13 de agosto, as vendas líquidas de algodão upland totalizaram 209,4 mil fardos.
Os embarques somaram 222 mil fardos, com destinos importantes como Vietnã, Paquistão, Índia, Bangladesh e Turquia.
Esse ritmo ajuda a explicar por que o mercado conseguiu manter o avanço mesmo diante de uma perspectiva relevante de oferta mundial.
Não foi apenas demanda
O lado produtivo dos Estados Unidos também entrou na formação dos preços.
Relatórios de mercado divulgados durante a semana apontaram que o USDA reduziu a estimativa de produção norte-americana para aproximadamente 13,61 milhões de fardos, ante 13,7 milhões anteriormente.
As condições das lavouras e o desenvolvimento final da safra seguem sendo acompanhados de perto, especialmente diante do calor em regiões produtoras.
O Cotton Marketing Planner, da Texas A&M University, também destacou que o contrato dezembro ganhou aproximadamente quatro cents na semana, enquanto indicadores físicos internacionais acompanharam a valorização.
Cotlook A chegou perto de 99 cents
O movimento não ficou restrito aos futuros.
O Cotlook A Index, uma das principais referências internacionais para o algodão físico, encerrou 21 de agosto em 98,90 cents por libra.
No dia anterior estava em 95,90 cents.
A diferença entre o índice físico e os futuros mostra que a valorização também chegou ao mercado internacional da fibra disponível.
Para produtores e tradings, essa relação é especialmente importante porque as negociações de algodão brasileiro utilizam referências externas combinadas a qualidade, prêmio, câmbio e condições logísticas.
E a colheita brasileira está realmente atrasada?
A resposta exige cuidado.
O briefing associava parte da valorização internacional a uma “colheita atrasada no Brasil”.
No principal estado produtor, Mato Grosso, existe um pequeno atraso em relação à média histórica, mas não em relação à safra passada.
Até 21 de agosto, a colheita mato-grossense havia alcançado 69,52% da área, segundo dados do Imea.
A média das últimas cinco temporadas para esse momento era de 71,98%.
Por outro lado, no mesmo período do ano anterior apenas 55,52% da área estava colhida.
Portanto, o cenário correto é mais específico: a colheita de Mato Grosso estava cerca de 2,5 pontos percentuais atrás da média de cinco anos, mas quase 14 pontos à frente do ritmo registrado em 2025.
Não há base suficiente para afirmar que toda a colheita brasileira atravessa um grande atraso.
Mato Grosso se aproxima de 70%
O avanço das máquinas também foi rápido durante agosto.
Em 31 de julho, Mato Grosso havia colhido 28,67% da área.
Em 14 de agosto, o índice chegou a 54,75%.
Uma semana depois, alcançou 69,52%.
O dado é particularmente relevante porque Mato Grosso concentra a maior parcela da produção brasileira de algodão.
À medida que a colheita avança, aumenta a disponibilidade física da nova safra e também o volume a ser beneficiado e comercializado.
Isso pode limitar parte da sustentação doméstica caso a demanda não acompanhe o crescimento da oferta.
Alta internacional não significa preço maior automaticamente no Brasil
Assim como acontece com soja e milho, o preço recebido pelo cotonicultor brasileiro não depende apenas de Nova York.
Entram na conta:
cotação na ICE, dólar, prêmio ou desconto do algodão brasileiro, qualidade da fibra, frete, disponibilidade e momento da comercialização.
Isso significa que uma alta de 4% em Nova York não necessariamente se transforma em alta de 4% na receita do produtor.
O câmbio pode ampliar ou reduzir o movimento.
Da mesma forma, uma grande disponibilidade brasileira durante a colheita pode pressionar diferenciais comerciais mesmo quando os futuros internacionais estão valorizados.
Os 90 cents não são mais apenas uma possibilidade
O briefing sugeria que os 90 cents por libra estavam “cada vez mais próximos como alvo”.
Para dezembro/2026, esse patamar ainda não havia sido alcançado no fechamento de 21 de agosto.
Mas março de 2027 já terminou a 90,15 cents e maio a 91,19 cents.
Ou seja, a curva futura já incorporou valores acima dessa referência.
A pergunta deixou de ser simplesmente “o algodão chegará a 90 cents?” e passou a ser se o contrato mais negociado conseguirá sustentar a aproximação desse nível.
A correção já começou a aparecer
O movimento também serve como lembrete de que nenhuma alta ocorre em linha reta.
Depois da forte valorização semanal, o contrato dezembro voltou a oscilar.
Na manhã desta terça-feira, 25 de agosto, operava próximo de 87,5 cents por libra, com queda superior a 1% no dia.
Isso não elimina a recuperação observada durante agosto.
Mostra apenas que, depois de uma alta rápida, operações de realização de lucros e mudanças nas expectativas podem provocar correções igualmente rápidas.
O que o produtor precisa observar agora
Três fatores devem continuar orientando o mercado nas próximas semanas.
O primeiro é o ritmo das exportações dos Estados Unidos.
O segundo é o resultado efetivo da safra norte-americana.
O terceiro é a entrada cada vez maior do algodão brasileiro no mercado durante a colheita.
Se a demanda internacional permanecer firme ao mesmo tempo em que os Estados Unidos enfrentarem redução de oferta, Nova York pode continuar encontrando sustentação.
Se a disponibilidade global aumentar ou a demanda perder intensidade, parte dos ganhos recentes pode ser devolvida.
A semana de alta superior a 4% confirmou que o algodão recuperou força. Mas os contratos acima de 90 cents também mostram que parte desse otimismo já está incorporada aos preços. A partir de agora, sustentar esses níveis dependerá muito mais dos fundamentos do que da expectativa.
Fontes principais: USDA Foreign Agricultural Service, USDA Agricultural Marketing Service, Imea, Texas A&M University, ICE/Cotlook e Notícias Agrícolas.






