Petróleo disparou 6% com ameaça ao Irã, mas novas sanções fizeram mercado recuar: o que muda para o agro?
Brent chegou a US$ 94,39 por barril na sexta-feira e caiu para perto de US$ 89 nesta terça; Brasil permanece exposto porque importa grandes volumes de fertilizantes e parte relevante da ureia vem do Oriente Médio.

Uma ameaça geopolítica feita a milhares de quilômetros das lavouras brasileiras foi suficiente para colocar novamente os custos da próxima safra no radar.
Na sexta-feira, 21 de agosto, o petróleo subiu depois que Donald Trump ameaçou impor sanções a países que continuassem fazendo negócios com o Irã.
O Brent, referência mundial, encerrou o dia em US$ 94,39 por barril. Na semana, acumulou valorização de 6,39%. O WTI norte-americano fechou a US$ 87,06, com avanço semanal de 5,66%.
O temor era de que uma nova escalada reduzisse ainda mais a oferta iraniana ou provocasse novas interrupções no Estreito de Ormuz.
Mas o petróleo devolveu parte da alta
A situação ganhou um novo capítulo em 25 de agosto.
Os Estados Unidos anunciaram sanções contra dezenas de pessoas, empresas e embarcações associadas ao comércio iraniano, incluindo redes relacionadas ao transporte de petróleo.
As medidas também ampliaram a ameaça de sanções secundárias contra parceiros comerciais do país.
O mercado, porém, esperava ações ainda mais duras.
Como as novas medidas não representaram uma interrupção imediata adicional da oferta mundial, investidores reduziram parte do prêmio de risco incorporado ao petróleo.
O Brent caiu mais de 3%, chegando a aproximadamente US$ 89,10 por barril, enquanto o WTI recuou para US$ 82,08.
Portanto, a afirmação de que novas sanções necessariamente fariam o petróleo continuar subindo não se confirmou até agora.
O que permanece elevado é a volatilidade.
Ormuz continua sendo o ponto mais sensível
O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas marítimas de petróleo e gás do planeta.
A passagem liga grandes produtores do Golfo ao Oceano Índico e aos compradores da Ásia e de outras regiões.
Dados de rastreamento citados pela Reuters mostraram que apenas nove navios de commodities passaram pelo estreito em determinados dias de agosto, em meio às restrições provocadas pelo conflito.
O fluxo permanece muito abaixo da normalidade.
É justamente por isso que qualquer ameaça de nova escalada produz reação imediata nos mercados.
Uma interrupção mais profunda poderia retirar petróleo da oferta mundial e elevar custos de transporte e seguro marítimo.
E onde o produtor brasileiro entra nessa história?
O primeiro impacto potencial está no diesel.
Máquinas agrícolas, caminhões, colheitadeiras e boa parte da logística brasileira dependem do combustível.
O preço pago no posto não acompanha automaticamente cada movimento diário do barril.
Entre o petróleo internacional e o diesel adquirido pelo produtor existem refino, política comercial das empresas, câmbio, impostos, distribuição e margens.
A própria ANP acompanha semanalmente tanto os preços no mercado brasileiro quanto os valores de paridade de importação, que consideram preço internacional, frete, movimentação e armazenamento.
Portanto, petróleo a US$ 95 hoje não significa diesel mais caro amanhã.
Mas uma alta internacional persistente aumenta a pressão sobre toda a cadeia.
O risco dos fertilizantes pode ser ainda mais importante
Para a agricultura brasileira, existe um segundo canal de transmissão.
Os fertilizantes.
O Brasil ainda depende fortemente do mercado internacional para abastecer suas lavouras.
Em 2025, o país gastou aproximadamente US$ 15,6 bilhões na importação de fertilizantes químicos e nutrientes para o solo, segundo dados da Secex reunidos pelo Ministério da Fazenda.
Os principais fornecedores totais foram Rússia, China, Canadá, Marrocos e Nigéria.
Mas quando a análise é feita por tipo de produto, o Oriente Médio ganha peso considerável.
Países da região forneceram aproximadamente:
35% da ureia importada pelo Brasil, 25% do MAP e 10% do cloreto de potássio em 2025.
Isso torna a cadeia brasileira vulnerável não apenas ao preço das matérias-primas, mas também a problemas logísticos no Golfo.
Ureia merece atenção especial
Entre os fertilizantes, os nitrogenados são particularmente sensíveis ao mercado energético.
A fabricação de amônia, matéria-prima essencial para a ureia, utiliza grandes volumes de gás natural.
Energia cara ou indisponível aumenta o custo de produção.
Além disso, uma crise no Oriente Médio pode atingir fretes, seguros e disponibilidade de navios.
Em 2025, aproximadamente 14% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil vieram de Omã e outros 10% do Catar. A região também possui peso relevante no fornecimento mundial desses produtos.
Por isso, mesmo uma crise que não interrompa diretamente a entrada de fertilizantes no Brasil pode alterar os preços internacionais.
Isso significa que o fertilizante vai disparar?
Também não.
O briefing recomendava fechar contratos imediatamente diante da possibilidade de uma alta rápida dos insumos.
Como orientação jornalística, essa conclusão é excessivamente categórica.
A decisão de compra depende do produto, região, estoque da fazenda, relação de troca, prazo de entrega, câmbio e estratégia comercial de cada operação.
Além disso, as próprias cotações do petróleo mostraram como uma expectativa pode mudar em poucos dias.
Na sexta-feira houve forte alta.
Na terça-feira, após as sanções efetivamente anunciadas, o petróleo caiu.
O risco existe, mas não permite afirmar antecipadamente que fertilizantes necessariamente subirão.
Mercado de fertilizantes já está pressionado
O alerta geopolítico chega, porém, a um mercado que já vinha mostrando preços elevados.
A Nutrien, uma das maiores produtoras mundiais de fertilizantes, informou em agosto que preços de nutrientes permaneciam elevados, enquanto problemas comerciais, energia cara e restrições de oferta mantinham os mercados de nitrogênio e fosfatados apertados.
Para o Brasil, isso aumenta a importância do planejamento da safra 2026/27.
Mais do que tentar acertar o dia exato da mínima do fertilizante, produtores precisam observar relação de troca, disponibilidade física e risco de entrega.
O petróleo caiu, mas o risco não desapareceu
A queda desta terça-feira mostra que o mercado não enxergou as novas sanções como um choque imediato capaz de retirar grande quantidade adicional de petróleo da oferta.
Isso não encerra o problema.
Os Estados Unidos afirmaram que podem aumentar a pressão econômica sobre parceiros comerciais do Irã, enquanto Teerã mantém capacidade de afetar rotas estratégicas na região.
Uma nova escalada militar ou uma interrupção mais severa da navegação poderia provocar outra reação nos preços.
Para o produtor brasileiro, portanto, o indicador mais importante não é apenas a cotação do Brent em um único pregão.
É a duração da crise.
Um pico de petróleo durante alguns dias pode ter pouco impacto na fazenda. Uma crise prolongada envolvendo energia, fretes e fertilizantes pode entrar diretamente no custo da safra 2026/27.
Fontes principais: Reuters, Ministério da Fazenda/Secex-MDIC, ANP e Ministério da Agricultura e Pecuária.






