Do tanque de etanol ao cocho: DDG vira novo produto de exportação do agro brasileiro
Brasil exportou 879 mil toneladas de DDG e DDGS para 25 mercados em 2025 e abriu uma nova fronteira em 2026 com o primeiro embarque de 62 mil toneladas para a China.

Durante décadas, quando se falava em milho no Brasil, os principais destinos eram conhecidos: alimentação animal, exportação e indústria.
O crescimento do etanol produzido a partir do cereal adicionou uma nova rota.
E junto com o combustível apareceu outro produto com valor próprio: o DDG.
A sigla vem de Dried Distillers Grains, ou grãos secos de destilaria. Quando os solúveis gerados no processo também são incorporados ao produto, surge o DDGS, Dried Distillers Grains with Solubles.
O princípio é relativamente simples.
Na produção de etanol, o amido do milho é utilizado na fermentação. O restante dos nutrientes fica concentrado nos coprodutos que seguem para alimentação animal.
Documentos técnicos do governo apontam teores médios de aproximadamente 30% a 35% de proteína nesses farelos, embora a composição varie conforme o processo industrial.
O Brasil não começou esse mercado apenas em 2019
Há uma correção importante em relação à pauta original.
O arquivo-base aponta 2019 como início da indústria brasileira de etanol de milho.
A produção, porém, começou antes.
Mato Grosso teve unidades flex utilizando milho para etanol a partir de 2012. Já a primeira grande planta brasileira dedicada exclusivamente ao processamento de milho, a FS em Lucas do Rio Verde, foi inaugurada em 2017.
Portanto, não é correto afirmar que o Brasil criou o DDG “do zero em sete anos”.
O que aconteceu em menos de uma década foi uma forte aceleração industrial e comercial desse mercado.
A produção já chegou a milhões de toneladas
A escala atual mostra essa transformação.
Documento do Ministério da Agricultura divulgado em 2026 aponta que a produção brasileira de DDG e DDGS saiu de aproximadamente 1,2 milhão de toneladas em 2020 para 5 milhões de toneladas em 2025.
A projeção apresentada no mesmo estudo é chegar a cerca de 10 milhões de toneladas em 2033.
Esse crescimento acompanha a expansão das biorrefinarias de milho.
Levantamento atualizado publicado em agosto de 2026 aponta 29 usinas de etanol de milho em operação no Brasil e outros 27 projetos em desenvolvimento.
O número é superior às 21 unidades indicadas na pauta original, mostrando como o setor continua avançando rapidamente.
Quase 880 mil toneladas exportadas
Parte importante desse DDG permanece no Brasil e abastece principalmente cadeias de bovinos, suínos e aves.
Mas o mercado internacional cresce.
Em 2024, o país exportou cerca de 801 mil toneladas.
Em 2025, foram 879.358 toneladas, avanço de 9,77%.
Os embarques chegaram a 25 mercados internacionais.
A Turquia liderou as compras, com aproximadamente 295,3 mil toneladas, ou 33,6% das vendas brasileiras.
Na sequência apareceram Vietnã, com 214,5 mil toneladas, e Nova Zelândia, com 141,8 mil toneladas.
Juntos, os três destinos absorveram mais de 70% do volume exportado em 2025.
China abriu uma nova fronteira em 2026
A entrada no maior mercado agrícola do mundo representou um dos principais acontecimentos recentes dessa cadeia.
Brasil e China concluíram em maio de 2025 o processo de abertura do mercado para DDG e DDGS brasileiros.
Em novembro, os primeiros estabelecimentos foram habilitados.
E em fevereiro de 2026 aconteceu o primeiro embarque comercial.
Um navio deixou o Porto de Imbituba, em Santa Catarina, com aproximadamente 62 mil toneladas destinadas à China.
A carga chegou posteriormente ao Porto de Nansha, em Guangzhou.
A operação é importante porque a China possui uma das maiores indústrias de alimentação animal do planeta.
Para o Brasil, portanto, o mercado chinês pode representar uma nova escala de demanda para um produto que até poucos anos atrás tinha pouca presença na pauta exportadora.
Por que o DDG interessa tanto à pecuária?
O DDG não é simplesmente “o que sobra” depois do etanol.
Durante a fermentação, grande parte do amido do milho é transformada em etanol.
Proteínas, fibras, gorduras e minerais ficam mais concentrados no produto resultante.
Por isso, órgãos técnicos classificam DDG e DDGS como ingredientes capazes de fornecer proteína e energia às dietas animais.
Em bovinos, o ingrediente pode ser utilizado em formulações para suplementação e confinamento.
Na produção de suínos e aves, também existe utilização, embora os níveis de inclusão precisem considerar características como teor de fibras, aminoácidos e composição específica do produto. Pesquisas recentes da Embrapa continuam avaliando justamente o valor nutricional desses coprodutos para suínos.
Ou seja, não existe uma substituição automática de milho ou farelo de soja.
O uso depende da formulação nutricional e do preço relativo entre os ingredientes.
Etanol deixou de gerar apenas combustível
O DDG ajuda a explicar por que as modernas plantas de etanol de milho passaram a ser chamadas de biorrefinarias.
O cereal entra na indústria e gera diferentes produtos.
Etanol.
DDG ou DDGS.
Óleo de milho.
Energia.
Em algumas plantas, até dióxido de carbono pode ser capturado e comercializado.
Essa diversificação muda a conta econômica.
A indústria deixa de depender exclusivamente do preço do combustível e passa a obter receita também com produtos destinados à pecuária e ao mercado internacional.
Milho ganha uma nova fonte de demanda
Existe ainda uma consequência direta para o produtor de grãos.
Quanto mais cresce a indústria de etanol de milho, maior tende a ser a demanda doméstica pelo cereal.
Isso é particularmente importante em estados do Centro-Oeste, onde enormes volumes de milho segunda safra são produzidos longe dos portos.
Transformar o grão localmente em combustível e coprodutos permite agregar valor antes de enviar a produção para outros mercados.
Por isso, DDG, etanol e pecuária passaram a formar uma cadeia cada vez mais integrada.
O milho alimenta a biorrefinaria.
A biorrefinaria produz combustível.
O coproduto retorna ao campo como alimento animal.
E parte desse produto segue para exportação.
Em 2025, quase 880 mil toneladas de DDG e DDGS brasileiros já atravessaram as fronteiras do país. Em 2026, a China entrou nessa rota. O que começou como coproduto passou a se comportar como um mercado próprio dentro do agronegócio brasileiro.
Fontes principais: Ministério da Agricultura e Pecuária, MDIC/Secex, União Nacional do Etanol de Milho, Embrapa e Ministério de Minas e Energia






