Diesel a R$ 7,91 em Mato Grosso e R$ 198 por hectare na soja: quem paga a conta se a subvenção acabar antes da colheita?
Combustível nunca pesou tanto no custeio da oleaginosa na série do Imea, e o frete ainda não repassou toda a alta acumulada no ano

O diesel voltou a subir em outubro e encontrou o produtor no meio do plantio. O preço médio do S-10 passou de R$ 7,333 para R$ 7,520 por litro no Brasil, alta de 2,55% no mês e de cerca de 5% em dois meses, segundo levantamento da ValeCard com transações feitas entre 1º e 26 de outubro em mais de 25 mil postos. A pressão foi mais forte justamente onde a safra se concentra: Goiás liderou com alta de 4,49%, para R$ 7,473, e Mato Grosso avançou 3,88%, para R$ 7,909 por litro.
A conta só não é maior porque há um freio público em vigor. Em 27 de outubro, o governo renovou por mais 30 dias a subvenção de R$ 2,12 por litro ao diesel rodoviário. É esse prazo que preocupa quem olha para a colheita e o escoamento da soja.
O peso dentro da porteira
Estudo do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), divulgado em 30 de outubro, mostra que o gasto com diesel nas operações mecanizadas da soja, somando semeadura, aplicações e colheita, está estimado em R$ 198,59 por hectare na safra 2026/27. O valor é 23,8% maior que o da safra anterior.
Com isso, o combustível passou a representar 4,59% do custeio da cultura, acima da média de 3,82% das últimas cinco safras e no maior nível da série considerada pelo instituto. O dado que mais chama atenção é outro: sozinho, o diesel responde por cerca de 27% do aumento do custeio da soja de uma safra para a outra.
Numa fazenda de 1.000 hectares, aquele gasto estimado equivale a quase R$ 200 mil só em combustível nas operações da lavoura. A conta é uma simples multiplicação da média do Imea e não considera diferenças de frota, relevo ou distância entre talhões.
O repasse que ainda não apareceu no frete
Fora da porteira, a pressão ainda está represada. Segundo o Imea, o diesel corresponde a 30% do custo operacional do frete rodoviário. Assim, cada 5% de alta no combustível acrescenta cerca de 1,5% a esse custo. A analista de logística do instituto, Ébila Ferreira, estima que o diesel acumulou de 15% a 20% de janeiro a outubro. Considerando 15%, o impacto calculado é de 4,5% no custo do transporte.
Mesmo assim, os valores médios do frete em Mato Grosso ficaram equivalentes na comparação de janeiro a outubro. O motivo, de acordo com o instituto, é que o preço do transporte depende também da sazonalidade da movimentação de grãos e das condições de mercado. Quando a demanda por caminhões cresce, o transportador ganha margem para repassar custos acumulados. Por isso o Imea aponta o início da colheita e do escoamento da soja como o momento em que o frete pode refletir as altas atuais.
A subvenção segura até quando?
A própria analista do Imea resume a preocupação: a subvenção ajuda a retardar os efeitos da alta, mas o setor quer saber se ela continuará valendo na colheita e no escoamento, quando os fretes já costumam subir. Em outubro, além de renovar o subsídio ao diesel rodoviário, o governo anunciou benefício adicional ao diesel importado, conforme o levantamento da ValeCard.
O cenário internacional segue instável. Nesta segunda-feira (2), o petróleo Brent recuava 4,2%, para US$ 108,64 por barril, com esperanças em torno das negociações para encerrar a guerra envolvendo o Irã, segundo a Reuters. O movimento é um alívio de curto prazo, não uma tendência confirmada: o Goldman Sachs elevou suas previsões e afirmou que o Brent pode chegar a US$ 140 em 2027 se a produção do Golfo seguir 3,5 milhões de barris por dia abaixo da média de 2025.
O que entra na conta do produtor
Há ainda o câmbio. O dólar fechou outubro a R$ 5,4460, maior nível do ano, o que tende a encarecer o que é importado. Para a safra que está sendo plantada, o recado é prático: o diesel deixou de ser um item secundário do custeio. Vale revisar a logística antes do pico da demanda, comparar opções de contratação do frete e acompanhar a decisão sobre a subvenção ao longo de novembro. Se o benefício acabar perto da colheita, a alta represada pode chegar de uma vez ao preço pago para tirar a soja da fazenda.






