Mato Grosso já plantou 75,8% da soja, mas espera colher menos e ver o custo subir 7%
O Imea projeta 50,89 milhões de toneladas e o menor avanço de área da série histórica, enquanto o adido do USDA prevê estoque brasileiro 35% menor em 2026/27.

Mato Grosso chegou à reta final de outubro com a plantadeira em ritmo acelerado. Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), 75,81% da área prevista de soja da safra 2026/27 estava semeada até 23 de outubro, um salto de 23,95 pontos percentuais em apenas sete dias. O Médio-Norte, principal polo produtor do estado, já tinha 96,60% das lavouras no chão; o Oeste somava 86,78%, e o Sudeste, 59,04%.
A velocidade, porém, não se traduz em otimismo com o volume. No boletim de 19 de outubro, o Imea estimou a produção mato-grossense em 50,89 milhões de toneladas, 1,43% abaixo do ciclo anterior, com produtividade de 64,82 sacas por hectare (queda de 2,02%). A área deve chegar a 13,08 milhões de hectares, avanço de só 0,60%, o menor crescimento da série histórica do instituto.
Custo sobe mais rápido que a área
O freio na expansão tem explicação no bolso. A atualização de outubro do custo de produção, feita por Senar-MT e Imea, aponta custo total de R$ 8.210,31 por hectare para a soja 2026/27, alta de 6,96% sobre 2025/26. O custeio, que reúne os desembolsos diretos da lavoura, ficou em R$ 4.324,87/ha, 3,43% a mais. As maiores pressões vieram das operações mecanizadas, que subiram 23,85%, e dos defensivos, 10,10% mais caros. As sementes foram a exceção, com recuo de 21,96%.
Dividindo o custo total pela produtividade estimada pelo Imea, a soja mato-grossense precisa de cerca de R$ 126,66 por saca para pagar todas as contas. Só o custeio exige perto de R$ 66,72 por saca (cálculo da reportagem com dados do Imea).
Margem estreita no mercado físico
Do lado da receita, o quadro não ajuda. Na cotação do Imea para a soja disponível, a saca fechou 23 de outubro a R$ 139,70 em Rondonópolis e a R$ 133,40 em Sorriso, após quedas diárias seguidas. No porto, o Indicador ESALQ/B3 do Cepea para Paranaguá marcou R$ 152,41 por saca no mesmo dia, depois de rodar acima de R$ 154 na primeira quinzena do mês.
Comparando esses preços com o custo por saca, a sobra seria de pouco mais de R$ 13 em Rondonópolis e de menos de R$ 7 em Sorriso. É apenas uma referência: a safra que está sendo plantada será negociada em 2027, a preços que ainda vão depender de câmbio, prêmios e da bolsa de Chicago. Ainda assim, a folga é pequena.
Adido do USDA vê estoque brasileiro 35% menor
A cautela de Mato Grosso conversa com o cenário nacional. Em relatório divulgado na semana passada, o adido agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em Brasília projetou a safra brasileira 2026/27 em 184 milhões de toneladas, abaixo dos 186 milhões da estimativa oficial do órgão. A área nacional subiria 1,4%, para 49,7 milhões de hectares, contra uma média de 4,2% ao ano nos cinco ciclos anteriores. Juros altos, custos de produção e incerteza climática explicam a desaceleração, e o Matopiba deve concentrar a maior parte do crescimento.
Com exportações de 117,5 milhões de toneladas e esmagamento recorde de 65 milhões, o adido calcula estoque final de 3,96 milhões de toneladas, cerca de 35% abaixo dos 6,06 milhões de 2025/26. O número oficial do USDA é de 6,56 milhões; a diferença de 2,6 milhões vem principalmente das premissas de produção e de estoque inicial, e não de expectativa de quebra. A Conab, no primeiro levantamento da temporada, divulgado em 15 de outubro, foi ainda mais conservadora: 181,6 milhões de toneladas em 49,3 milhões de hectares.
No campo, o plantio nacional segue adiantado. O último acompanhamento semanal da Conab, com dados até 18 de outubro, mostrava 30,1% da área semeada no país; o boletim desta semana ainda não havia sido divulgado no fechamento desta edição. A consultoria AgRural, por sua vez, informou hoje que o Brasil chegou a 40% da área até a última quinta-feira, ante 36% um ano antes.
O que o produtor pode fazer agora
O aperto de oferta em 2027 é possível, mas ainda não está garantido. Estoques menores dependem de um ano sem problemas na exportação e no esmagamento. E o próprio adido aponta que o maior risco climático está na colheita, no início de 2027. Para o produtor de Mato Grosso, a recomendação prática é conhecer o próprio ponto de equilíbrio por saca, usando como referência os cerca de R$ 126 calculados com os dados do Imea. Também vale escalonar as vendas futuras quando o preço cobrir esse custo com folga, em vez de apostar todo o volume numa alta. E é preciso acompanhar de perto as lavouras semeadas cedo no Médio-Norte, que vão definir a janela e o potencial do milho segunda safra.






