São Paulo pode perder até 95% do trigo e o preço no RS cai 9% em uma semana: por que a quebra não sustenta o preço?
Chuva na colheita derrubou a qualidade, abriu R$ 300 por tonelada entre o tipo 1 e o tipo 3 e deixou o moinho seletivo. Agora o dólar a R$ 5,40 muda a paridade com o trigo argentino

Em São Paulo, a estimativa informal é de que a safra de trigo possa ter perdido entre 90% e 95% do potencial. No Rio Grande do Sul, a Emater calcula uma produção de 2,16 milhões de toneladas, queda de 37,48% sobre o ano anterior. Mesmo assim, o preço do trigo gaúcho caiu até 9,2% em uma única semana de outubro.
Quebra de safra com preço em queda parece contradição. Não é. E a explicação mostra que, no trigo, a palavra que mais pesa neste ano não é quantidade, é qualidade.
Os números da semana
Segundo levantamento publicado pelo Portal do Agronegócio em 23 de outubro, com base em dados da Safras & Mercado, entre 16 e 22 de outubro a tonelada em Porto Alegre (CIF) caiu de R$ 1.630 para R$ 1.500, recuo de 8%. Em Carazinho, passou de R$ 1.550 para R$ 1.420 (-8,4%). Em Santa Rosa, de R$ 1.530 para R$ 1.390 (-9,2%). Negócios no dia 20 foram fechados a R$ 1.350 por tonelada no interior.
No Paraná, Cascavel e Ponta Grossa trabalharam a R$ 1.520 por tonelada FOB. Em Curitiba, o trigo tipo 1 posto no moinho chegou a R$ 1.650, acima dos R$ 1.560 de um mês antes. Já o tipo 3 ficou em R$ 1.350. A diferença entre os dois extremos é de R$ 300 por tonelada, e ela conta a história inteira.
Por que a quebra não sobe o preço
A chuva persistente durante a colheita derrubou a qualidade de boa parte dos lotes. No RS, a Emater registrou PH entre 70 e 76 na região Celeiro, com presença de grãos germinados, e entre 70 e 74 no Alto Jacuí em lavouras dessecadas que tomaram chuva. Houve devolução de cargas destinadas a ração por contaminação pela micotoxina DON. Em São Paulo, a chuva na colheita afetou o falling number, indicador central para a indústria de panificação.
O moinho precisa de trigo que faça pão. Quando a oferta é grande de grão fora do padrão e pequena de grão bom, o preço médio cai, enquanto o lote de qualidade se valoriza. No sudoeste do Paraná, lotes de PH 75 foram vendidos a R$ 1.350 por tonelada FOB, e lotes de PH 73 a R$ 1.280: R$ 70 de desconto por dois pontos de PH.
Há ainda um teto externo. Em 9 de outubro, a Safras & Mercado apontava o trigo argentino a US$ 310 por tonelada em Canoas, o que equivalia a cerca de R$ 1.556 com o dólar a R$ 5,02. Com a Argentina mais barata que o trigo gaúcho de padrão moageiro, os moinhos tinham pouco espaço para pagar mais.
O dólar mexeu nessa conta
Em 26 de outubro, o dólar comercial fechou a R$ 5,403, alta de 8,21% em um dia. Pelo cálculo da AgroForte, o mesmo trigo argentino a US$ 310 passa a custar cerca de R$ 1.675 por tonelada a esse câmbio, sem considerar mudança no preço em dólar. A paridade de importação subiu mais de R$ 100 por tonelada da noite para o dia.
Isso não garante alta automática no mercado interno, mas tira parte da pressão que a importação exercia sobre o produtor que tem trigo de qualidade. E o Brasil vai precisar importar muito: a Abitrigo estima que as compras externas podem chegar perto de 9 milhões de toneladas neste ciclo, acima da projeção inicial de 7,5 milhões. Só para cobrir a quebra paulista, a Câmara Setorial do Trigo de São Paulo fala em cerca de 600 mil toneladas adicionais, tema de reunião marcada para 29 de outubro.
O que o triticultor pode fazer agora
Classificar antes de vender. Com R$ 300 por tonelada entre tipo 1 e tipo 3, segregar lotes por PH e falling number vale mais do que qualquer movimento de mercado. Misturar trigo bom com trigo ruim no armazém é a forma mais rápida de perder dinheiro nesta safra.
Acompanhar a paridade, não só o preço local. Com o câmbio mais alto, o trigo de padrão moageiro ganha competitividade frente ao importado. Quem tem lote bom e pode esperar algumas semanas tem um argumento novo na negociação.
Resolver o lote ruim cedo. Grão com DON ou germinação alta tem destino limitado. Buscar comprador de ração com laudo em mãos evita a surpresa da carga devolvida.
O Paraná tinha 82% da área colhida em 19 de outubro, segundo o Deral. O Rio Grande do Sul, 19% em 22 de outubro, segundo a Emater. A maior parte do trigo gaúcho ainda está no campo. A definição de preço desta safra, portanto, está só começando.






