Plantio da soja salta de 15,6% para 30,1% em uma semana: o avanço recorde esconde uma safra desigual?
Mato Grosso acelera com a volta da chuva, enquanto o excesso de água trava as máquinas no Paraná e encharca lavouras em Mato Grosso do Sul.

O mapa do plantio da soja 2026/27 está mais dividido do que a média nacional deixa ver. Em apenas uma semana, a área semeada no Brasil praticamente dobrou: passou de 15,6% para 30,1% do total previsto até 16 de outubro, segundo o acompanhamento semanal da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O número supera os 21,4% registrados no mesmo período de 2025 e a média de 26,4% das últimas cinco safras.
A consultoria AgRural, que fecha a conta às quintas-feiras, chegou a um retrato parecido: 26% da área plantada até 15 de outubro, contra 15% uma semana antes e 24% um ano atrás. A diferença de método não muda a conclusão. O país está à frente do calendário, mas esse avanço depende quase todo de uma região.
Mato Grosso puxa a média
A aceleração veio de Mato Grosso. Segundo a Conab, a volta da chuva permitiu avanço em todas as macrorregiões do estado, com o Médio-Norte e o Oeste à frente. Os dados de progresso citados pela estatal apontam mais de 60% da área mato-grossense já semeada. Goiás também ganhou ritmo, sobretudo no Sudoeste, e já supera o andamento da safra passada. Em Minas Gerais, as áreas de sequeiro avançaram depois das chuvas.
Para quem planta no Centro-Oeste, a pressa tem razão econômica: semear cedo abre a janela ideal para o milho safrinha, que costuma definir a rentabilidade do ano. O Cepea observou nesta semana que, mantido o ritmo da safra verão, as atividades da segunda safra podem ser feitas dentro da janela considerada ideal.
O outro lado: solo encharcado no Sul e em MS
O avanço nacional esconde um problema sério mais ao sul. Em Mato Grosso do Sul, a alta umidade suspendeu temporariamente a semeadura na maior parte do estado, e a Conab registrou encharcamento e amarelecimento de plantas no sul sul-mato-grossense. Em São Paulo, o solo úmido dificulta o trânsito das máquinas e atrasa os trabalhos.
No Paraná, o Departamento de Economia Rural (Deral) aponta 39% da área semeada ao fim da primeira quinzena de outubro. A AgRural foi mais direta: os trabalhos no estado praticamente travaram por excesso de chuva. Produtores ouvidos pelo Sistema FAEP relatam atrasos de cerca de 20 dias e gasto extra com reaplicação de herbicida contra a buva, estimado em R$ 200 por hectare nas áreas que exigirem nova intervenção.
No Norte e no Nordeste, o problema é o oposto. Pará e Tocantins seguem com plantio lento e localizado pela irregularidade das chuvas, e a Conab avisa que a restrição hídrica ainda pode limitar o avanço nesses estados nos próximos dias.
Milho verão também à frente
O milho primeira safra acompanha o bom ritmo geral. A Conab aponta 36% da área semeada até 16 de outubro, contra 35,3% no mesmo período de 2025 e média de 35,6% das últimas cinco safras. No Rio Grande do Sul e no Paraná, a semeadura caminha para o fim, mas granizo, vendavais e umidade elevada aumentaram a pressão de doenças e de pragas como lagartas e tripes em algumas lavouras.
Plantar rápido não garante preço
O bom ritmo reforça a expectativa de uma safra grande, e é justamente isso que pesa nas cotações. O primeiro levantamento da Conab para 2026/27 projeta 181,6 milhões de toneladas de soja. Na segunda-feira (19), o Indicador Cepea/Esalq da soja em Paranaguá fechou a R$ 154,24 por saca, queda de 0,24%, e o contrato de novembro em Chicago recuou 0,61%, para US$ 12,5350 por bushel, segundo a CME. Em Rondonópolis (MT), o Imea registrou R$ 141,80 por saca.
O Cepea resume o momento: a perspectiva de maior oferta pressiona as cotações. Com dólar perto de R$ 5,04 e Chicago pressionado pela colheita americana, a margem de erro na comercialização da nova safra ficou menor.
O que acompanhar
Três pontos merecem atenção nas próximas semanas. O primeiro é a chuva prevista para o Sul entre quarta-feira (21) e sábado (24), que pode superar 100 milímetros em áreas do Paraná, de Santa Catarina e do noroeste gaúcho, segundo a Meteored. O segundo é a regularidade das chuvas em Tocantins, no Pará e no Matopiba. O terceiro é o próximo boletim da Conab, que vai mostrar se o Sul conseguiu recuperar parte do atraso.
A média nacional diz que o Brasil está adiantado. A lavoura de cada região mostra que a safra 2026/27 começa com riscos bem diferentes de um estado para outro, e é nessa diferença que o produtor precisa planejar a safrinha e a venda da soja.






