115 anos, R$ 1,4 bilhão em dívidas e liquidação aprovada por 375 de 11.393 sócios: o que acontece agora com a Cotribá?
A cooperativa gaúcha, considerada a mais antiga do agro em atividade no país, aprovou por unanimidade a dissolução e a liquidação extrajudicial, mas segue funcionando. A recuperação judicial tinha sido negada pela Justiça

Fundada em 1911, em Ibirubá, no noroeste do Rio Grande do Sul, a Cooperativa Agrícola Mista General Osório, a Cotribá, é considerada a cooperativa agropecuária mais antiga em atividade no Brasil, segundo o CompreRural. Em 20 de outubro, aos 115 anos, ela iniciou a fase mais delicada de sua história. Em assembleia geral extraordinária, os associados aprovaram por unanimidade a dissolução voluntária da cooperativa e o início da liquidação extrajudicial, de acordo com o Canal Rural.
Os números da crise
No pedido de recuperação judicial apresentado em abril, a Cotribá declarou cerca de R$ 1,427 bilhão em dívidas, distribuídas entre 20.614 credores, entre instituições financeiras, fundos e produtores rurais, segundo o CompreRural. O valor corresponde ao passivo informado naquela ocasião, não a um balanço atualizado. A cooperativa tem 11.393 associados e 67 pontos de negócios espalhados por 30 municípios gaúchos, de acordo com a AgFeed.
Um detalhe chama a atenção: a assembleia que decidiu o futuro da cooperativa reuniu 375 associados, cerca de 3% do quadro social, conta feita pela AgroForte a partir dos números divulgados.
Por que a recuperação judicial foi negada
A mudança de estratégia veio depois de a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul negar à Cotribá o acesso à recuperação judicial, em setembro. Segundo a Globo Rural, o entendimento foi de que a cooperativa, por ter natureza jurídica de sociedade simples, não se enquadra nas regras de recuperação previstas para sociedades empresárias. A cooperativa já havia apresentado dois pedidos de recuperação judicial em 2025, em meio a atrasos de pagamentos a produtores, funcionários e fornecedores, segundo a Rádio Mundial.
Liquidação não é fechamento imediato
Apesar do nome, a liquidação aprovada prevê a continuidade das operações, incluindo o recebimento e a comercialização de grãos dos associados. O presidente Sergio Strentzke foi eleito liquidante e passa a conduzir as negociações com credores e a administração do patrimônio. O edital levado à assembleia previa poderes para renegociar dívidas, contratar financiamentos, vender bens e oferecer ativos em garantia, segundo o CompreRural. Por ser extrajudicial, a medida tem efeitos imediatos e não depende de homologação da Justiça.
Na coletiva após a assembleia, a direção resumiu o momento ao dizer que não era mais possível pensar em milagres, segundo a AgFeed.
Unidades já mudaram de mãos
A crise já tinha produzido efeitos locais. Em Cachoeira do Sul, a Cotribá deixou de operar a unidade às margens da BR-290, que passou para o Grupo Olfar, e uma unidade em Arroio Grande também foi negociada, segundo o jornal O Correio.
Uma rota já percorrida
A Cotribá não é a primeira cooperativa gaúcha a tentar esse caminho. A Languiru, do Vale do Taquari, que também passou por liquidação, recebeu representantes da Cotribá para compartilhar sua experiência, em aproximação articulada pelo sistema Ocergs e pela Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul, segundo a Folha Popular.
O que fica para o produtor
Para o associado, a liquidação significa conviver com incerteza sobre valores a receber e com a necessidade de acompanhar de perto as assembleias e as negociações. Para o cooperativismo, o caso reforça a importância de governança, controle de endividamento e participação dos sócios nas decisões, sobretudo em um momento de juros altos, quebras de safra e crédito mais caro no campo.





