62 empresas pediram R$ 2,9 bilhões ao BNDES, mas só R$ 200 milhões chegaram: o crédito para fertilizantes está andando?
Até 1º de outubro, o Plano Brasil Soberano 3 tinha R$ 1,7 bilhão aprovado para a cadeia de fertilizantes, mas menos de 7% do valor pedido havia sido desembolsado. Com o dólar em alta, a dependência externa volta ao centro do debate

Quando o dólar sobe, o produtor sente primeiro no adubo. Mais de 80% dos fertilizantes usados no Brasil são importados, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para reduzir essa dependência e socorrer empresas afetadas por tarifas e instabilidade internacional, o governo incluiu a cadeia de fertilizantes entre as prioridades do Plano Brasil Soberano, operado pelo BNDES. A procura foi grande. O dinheiro, até agora, nem tanto.
Pedido, aprovado e liberado
Até 1º de outubro de 2026, 62 empresas do setor haviam solicitado R$ 2,9 bilhões em financiamentos pelo Brasil Soberano 3. Desse total, R$ 1,7 bilhão tinha sido aprovado em 65 operações, mas apenas R$ 200 milhões haviam sido efetivamente desembolsados, segundo dados atribuídos ao BNDES e publicados pelo CompreRural. Em outras palavras, menos de 7% do valor pedido tinha chegado ao caixa das empresas, conta feita pela AgroForte.
A demanda cresceu rápido. Na fase anterior do programa, encerrada em junho, os pedidos somavam cerca de R$ 1 bilhão. Desde então, houve alta de cerca de 190%, segundo o portal Boca. Os maiores pedidos vieram da multinacional Mosaic e da brasileira Fertipar, o que mostra a concentração das solicitações entre misturadoras de fertilizantes.
Por região, o Sul liderou as aprovações, com R$ 626 milhões, seguido pelo Sudeste, com R$ 582 milhões. O Centro-Oeste, maior consumidor de fertilizantes do país, teve R$ 284 milhões aprovados, o Nordeste, R$ 122 milhões, e o Norte, R$ 100 milhões.
As outras frentes
O crédito do BNDES não é a única medida. O vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou que o Brasil Soberano 3 teria R$ 4 bilhões destinados especificamente a empresas de fertilizantes, e o Conselho Monetário Nacional ampliou o acesso da cadeia a capital de giro e prorrogou até 31 de dezembro de 2027 o prazo para pedidos de financiamento ao BNDES, segundo o Canal Rural.
Em agosto, o Congresso concluiu a aprovação do Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert). O texto prevê um crédito emergencial de até R$ 1 bilhão em 2026 para produtoras ou importadoras que repassarem o benefício ao preço e créditos fiscais para a produção nacional entre 2027 e 2031, com teto anual de R$ 2 bilhões e limite total de R$ 10 bilhões, condicionados à previsão no orçamento. O Plano Nacional de Fertilizantes tem como meta atender entre 45% e 50% da demanda com produção nacional até 2050.
Por que isso importa agora
O tema voltou ao centro do debate com a alta do dólar depois da eleição. Uma compra de insumos de US$ 50 mil, por exemplo, passou de R$ 249,5 mil para R$ 270 mil com o câmbio indo de R$ 4,99 para R$ 5,40, segundo cálculo publicado pelo portal RDM Online. Ao mesmo tempo, o Imea estima que o custo de produção da soja em Mato Grosso na safra 2026/27 passou de R$ 8,2 mil por hectare.
O que observar
Para o produtor, o efeito das políticas industriais não é imediato: novas fábricas levam anos para sair do papel, e o crédito precisa chegar às empresas para virar produção. No curto prazo, a principal proteção continua sendo planejar a compra, acompanhar a relação de troca entre grão e adubo e, quando possível, travar o custo antes de a moeda oscilar. A velocidade com que os R$ 1,7 bilhão aprovados viram dinheiro na conta das empresas será o próximo termômetro do programa.





