Cinco filhos, 20% para cada um e proibição de vender até 2052: o que a sucessão do dono da Louis Vuitton ensina às famílias do agro?
Bernard Arnault, que já foi o homem mais rico do mundo, travou o controle da LVMH em uma holding familiar. No Brasil, a nova lei do ITCMD, em vigor desde janeiro, tornou o planejamento sucessório no campo mais urgente

Bernard Arnault, presidente da LVMH, grupo dono de marcas como Louis Vuitton, Dior e Sephora e também de vinícolas e casas de champanhe como a Moët & Chandon, chegou a ser o homem mais rico do mundo em 2023. O posto passou a Elon Musk em 2024, mas o francês segue entre os maiores bilionários do planeta. Para as famílias do agro, porém, o que mais interessa na trajetória dele não é a fortuna, e sim a forma como decidiu organizar quem vai mandar nela depois dele.
A trava de 30 anos
Em dezembro de 2022, Arnault transformou a Agache, holding da família que controla a LVMH, em uma sociedade em comandita por ações, uma forma jurídica francesa que separa o capital do poder de gestão. O controle da Agache passou a ser exercido por uma nova empresa, a Agache Commandité SAS, dividida em partes iguais entre os cinco filhos: Delphine, Antoine, Alexandre, Frédéric e Jean, com 20% cada, segundo documentos enviados à autoridade francesa do mercado de capitais (AMF) e noticiados pela imprensa internacional.
As regras são rígidas. As ações dessa empresa não podem ser vendidas nem transferidas por 30 anos, ou seja, até 2052, salvo decisão unânime de um comitê formado pelos próprios irmãos. Depois disso, só descendentes de Bernard Arnault podem ser sócios, e qualquer venda passa por direito de preferência. A presidência da empresa dos filhos é rotativa, a cada dois anos, e decisões extremas, como dissolver a holding, exigem o acordo dos cinco, segundo a Bloomberg Línea. Todos os filhos trabalham no grupo.
O contraexemplo italiano
O cuidado tem motivo. Quatro anos após a morte de Leonardo Del Vecchio, fundador da Luxottica, dona da Ray-Ban, disputas entre os herdeiros paralisam a Delfin, holding da família, segundo reportagem da Bloomberg Línea publicada em julho. O caso é citado como alerta justamente porque o risco mais comum em uma herança dividida não é a briga pública, e sim a paralisia nas decisões ou a venda de uma parte para alguém de fora.
A mesma história na fazenda
No campo, o roteiro é conhecido. O patriarca morre, a terra é dividida entre irmãos com interesses diferentes, um quer vender, outro quer continuar plantando, e a propriedade trava em inventário ou em condomínio. A holding familiar rural surgiu justamente como ferramenta para organizar essa passagem, com quotas no lugar de matrículas e regras de sócios no lugar de disputas.
Por que o tema ficou urgente em 2026
A Lei Complementar 227, de 13 de janeiro de 2026, editada no contexto da reforma tributária, estabeleceu normas nacionais para o ITCMD, o imposto sobre herança e doação. A cobrança passou a ser obrigatoriamente progressiva, ou seja, a alíquota sobe conforme o valor transmitido, e quotas de empresas familiares não listadas em bolsa passam a ser avaliadas pelo valor de mercado dos bens, e não mais pelo valor histórico declarado no imposto de renda, segundo análise publicada pela Agrishow.
Há, porém, um intervalo. Enquanto cada estado não aprovar sua lei de adequação, continua valendo a legislação estadual atual. Em maio, estados como São Paulo, Paraná, Espírito Santo e Minas Gerais ainda não tinham publicado essas leis, segundo artigo do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM). Mesmo assim, reportagem da AgroRevenda de 28 de outubro aponta que, enquanto famílias empresárias urbanas correm para revisar a sucessão, a maior parte das famílias do agro ainda não fez essa conta.
A lição que vale mais que o imposto
Especialistas ouvidos pelas publicações do setor convergem em um ponto: a holding não acabou com a reforma, mas deixou de ser apenas uma ferramenta para pagar menos imposto. Seu papel principal é de governança, com regras sobre quem decide, quem pode vender e quem pode entrar na sociedade. É exatamente o que Arnault fez ao definir essas regras enquanto ainda está no comando. Cada caso exige análise de um especialista em planejamento sucessório, considerando o patrimônio, a atividade rural e a legislação do estado.





