Bill Gates tem cerca de 111 mil hectares e é o maior dono privado de terras agrícolas dos EUA: por que bilionários da tecnologia estão comprando fazendas?
O fundador da Microsoft acumula cerca de 275 mil acres em pelo menos 17 estados. Ele diz que isso é menos de 1/4000 das terras agrícolas americanas e que não há nenhum plano secreto por trás das compras

O homem que ficou conhecido por colocar um computador em cada mesa também é, hoje, o maior proprietário privado de terras agrícolas dos Estados Unidos. Bill Gates, fundador da Microsoft, soma cerca de 275 mil acres, o equivalente a aproximadamente 111 mil hectares, segundo o Land Report, publicação americana especializada em grandes proprietários rurais. Do total, cerca de 248 mil acres são de terra agrícola ativa, espalhados por pelo menos 17 estados.
Onde estão as terras
As maiores áreas estão na Louisiana, com cerca de 69 mil acres, no Arkansas, com quase 48 mil, e em Nebraska, com pouco mais de 20 mil, de acordo com dados do Land Report reproduzidos pelo Yahoo Finance. As terras são mantidas diretamente ou por meio da Cascade Investment, empresa que administra o patrimônio pessoal de Gates.
A carteira foi montada em grandes lotes. Duas compras se destacam: um conjunto de fazendas que pertencia ao fundo de pensão canadense CPP Investments, adquirido em 2017, e a área conhecida como 100 Circles, em Horse Heaven Hills, no leste do estado de Washington, comprada em 2018. Só essas duas operações somaram mais de US$ 690 milhões, segundo o Land Report.
A teoria dos 80% e a resposta dele
O tamanho da carteira alimentou boatos nas redes sociais, incluindo a afirmação de que Gates seria dono de 80% das terras agrícolas americanas. Os números não sustentam a tese. Questionado sobre o tema, o próprio Gates respondeu que possui menos de 1/4000 das terras agrícolas dos Estados Unidos e afirmou que não existe nenhum grande plano por trás das aquisições. Em entrevista em rede social, ele relacionou as compras a uma decisão do seu grupo de investimento, e não a um projeto pessoal.
Também vale separar o investimento em terra do trabalho filantrópico. A Fundação Gates financia há anos pesquisas sobre sementes mais resistentes ao clima e animais mais produtivos, sobretudo para pequenos agricultores da África e da Ásia. São frentes diferentes.
Por que terra atrai quem tem muito dinheiro
Gates não está sozinho. Fundos de pensão, gestoras e famílias ricas compram terras agrícolas porque elas combinam renda anual, com o arrendamento ou a produção, e valorização no longo prazo. Terra produtiva não desaparece e acompanha a demanda por alimentos, que cresce com a população e a renda. Por isso, costuma ser vista como proteção contra a inflação.
Outro ponto importa para o produtor: Gates não planta. As fazendas são operadas por agricultores e empresas especializadas, em contratos de arrendamento ou gestão. O dono do capital e quem toca a lavoura são pessoas diferentes, modelo que também cresce no Brasil com fundos de terras e empresas que arrendam grandes áreas.
A comparação com o Brasil
Em hectares, a maior carteira agrícola privada dos Estados Unidos não impressiona tanto um brasileiro. Grandes grupos e produtores do Centro-Oeste operam áreas comparáveis ou maiores. A diferença está no preço: a terra americana do Meio-Oeste é das mais caras do mundo, enquanto no Brasil o hectare de lavoura em Mato Grosso já ultrapassa R$ 70 mil nas melhores regiões, como mostrou a compra concluída pela SLC Agrícola em outubro. Para quem tem capital, a lógica de Gates é a mesma em qualquer país: terra boa, bem administrada, é um ativo difícil de substituir.





