R$ 72,3 mil por hectare: a compra da SLC em Mato Grosso mostra quantas sacas de soja custa a terra hoje
A empresa concluiu em 30 de outubro o pagamento de R$ 669 milhões por 8,9 mil hectares agricultáveis que já cultivava como arrendatária. Pela conta da AgroForte, cada hectare equivale a cerca de 540 sacas de soja

A SLC Agrícola concluiu na sexta-feira (30) o pagamento da compra de um conjunto de fazendas em Mato Grosso conhecido como Bloco Mato Grosso, do Grupo Radar. A operação somou R$ 669,04 milhões e foi aprovada sem restrições pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), segundo comunicado da empresa ao mercado, noticiado pela CNN Brasil e pelo Money Times. Além do tamanho, o negócio chama a atenção por oferecer um preço de referência raro e auditado para a terra de lavoura no estado.
O que foi comprado
O portfólio adquirido tem 11,1 mil hectares. Desses, cerca de 8,9 mil são agricultáveis. Os outros 2,2 mil hectares correspondem a reserva legal, áreas de preservação permanente, estradas internas e sedes. Do valor total, R$ 644,1 milhões se referem à terra nua útil e agricultável, o equivalente a cerca de R$ 72,3 mil por hectare. Os R$ 24,9 milhões restantes correspondem à infraestrutura, como silos, algodoeira e outras benfeitorias, conforme laudo de avaliação.
O pagamento foi feito em duas parcelas: R$ 255,15 milhões depositados em conta vinculada na assinatura, em julho, e R$ 413,88 milhões quitados no dia 30.
Arrendatária que virou dona
A SLC já cultivava soja, milho e algodão em 17,6 mil hectares do bloco como arrendatária. Quando as terras foram colocadas à venda, a empresa exerceu, em 26 de junho, o direito de preferência que a lei garante ao arrendatário, sobre o conjunto de cerca de 41,2 mil hectares. Como outros arrendatários também exerceram o direito, as partes chegaram a uma composição: a SLC ficou com 8,9 mil hectares e manteve o arrendamento de outros 8,7 mil, parte deles com contratos renovados por 15 anos, segundo documentos enviados à CVM.
O preço por hectare saiu acima do pacote completo negociado em junho, que equivalia a cerca de R$ 64,2 mil por hectare, segundo comparação publicada pelo portal Piranot.
Quantas sacas custa um hectare
Para traduzir o valor para a linguagem do campo, a AgroForte fez uma conta aproximada. Com a soja disponível em Sorriso perto de R$ 134 por saca, segundo o Imea, um hectare de R$ 72,3 mil equivale a cerca de 540 sacas. Com produtividade de 66 sacas por hectare, a média de Mato Grosso na safra 2025/26 segundo o Rally da Safra, seriam mais de oito safras de faturamento bruto, sem descontar nenhum custo. E o custo não é pequeno: o Imea estima o custo de produção da soja em Mato Grosso em R$ 8.210,31 por hectare na safra 2026/27.
Quanto rende ser o dono
O mesmo negócio ajuda a medir o rendimento de quem arrenda a terra. Parte da área continuará arrendada à SLC por mais 15 anos, ao custo de 19,5 sacas por hectare ao ano, segundo os documentos da operação. Pelo preço atual da soja em Sorriso, isso dá cerca de R$ 2,6 mil por hectare ao ano, aproximadamente 3,6% sobre o valor da terra, também em conta da AgroForte.
Se o rendimento anual é modesto, por que grandes empresas continuam comprando? Porque a terra também valoriza. Entre 2019 e 2024, o preço médio das terras agrícolas no Brasil passou de R$ 14.818 para R$ 31.610 por hectare, alta de 113%, segundo a Scot Consultoria.
O que isso diz ao produtor
Para quem pensa em expandir, a operação oferece duas referências úteis: quanto o mercado paga por terra aberta e produtiva em Mato Grosso e quanto essa terra rende em arrendamento. Entre comprar e arrendar, a decisão passa pelo caixa disponível, pelo custo do dinheiro e pelo horizonte de tempo. Os valores, porém, variam muito dentro do próprio estado, conforme solo, regime de chuvas e distância de armazéns e portos.





