85% das empresas não encontram piloto de drone agrícola: a frota cresceu mais rápido do que a mão de obra?
O cadastro da Anac tem pouco mais de 13 mil drones declarados para uso aeroagrícola, mas estimativas de mercado passam de 60 mil. Novas regras do espaço aéreo e o fim da dispensa de prova teórica em 31 de dezembro mudam o jogo

Em poucos anos, o drone deixou de ser novidade de feira e passou a sobrevoar lavouras de soja, café, cana e frutas em todo o país. O equipamento pulveriza defensivos e fertilizantes, mapeia falhas e aplica produtos biológicos com precisão. O crescimento da frota, porém, expôs um problema que o setor não conseguiu resolver no mesmo ritmo: falta gente qualificada para pilotar.
O gargalo da mão de obra
Uma pesquisa do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) com mais de 40 empresas mostrou que 85% delas não encontram profissionais qualificados para operar drones agrícolas, segundo o diretor operacional da entidade, Cláudio Oliveira, em reportagem do Economic News Brasil. A carência não se resume a saber voar: o piloto precisa entender de calibração, tecnologia de aplicação, deriva, clima e da legislação de defensivos.
O problema também atinge a aviação agrícola tradicional. O Brasil tem a segunda maior frota de aviões agrícolas do mundo, mas forma cerca de 70 pilotos de avião agrícola por ano, número inferior ao de aeronaves que chegam ao mercado, segundo a AgFeed.
Quantos drones existem, afinal?
A resposta depende da fonte. O cadastro da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) reunia pouco mais de 13 mil drones declarados para atividade aeroagrícola ao fim de 2025, enquanto estimativas privadas apontam mais de 60 mil equipamentos em operação no país, com projeção de cerca de 115 mil até 2030. Os dois números não medem necessariamente o mesmo universo e, por isso, não permitem concluir quantos drones operam fora das regras, alerta o Economic News Brasil.
No total, considerando todos os usos, o Sistema de Aeronaves Não Tripuladas (Sisant), da Anac, tinha 190.063 drones com cadastro vigente em 18 de outubro de 2026, dos quais 162.314 da fabricante chinesa DJI, segundo análise dos dados abertos da agência publicada pelo portal PickDrones.
As regras que o produtor precisa conhecer
Operar drone agrícola no Brasil exige cadastro do equipamento na Anac, pelo Sisant, e autorização de acesso ao espaço aéreo junto ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), pelo sistema Sarpas, independentemente do peso do equipamento. Em 2026, o Decea colocou em vigor uma nova instrução sobre o tema, a ICA 100-40, a partir de 1º de julho. Além disso, a dispensa da prova teórica da Anac para pilotos de drone termina em 31 de dezembro de 2026, segundo o PickDrones. A aplicação de defensivos também está sujeita às normas do Ministério da Agricultura e Pecuária.
O tema chegou ao Congresso. Em março, a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado aprovou requerimento para debater o uso de drones na agricultura em audiência pública.
Oportunidade para quem se qualifica
Para o produtor que pensa em comprar um drone ou contratar o serviço, a recomendação é verificar se o operador tem cadastro, autorização e formação em aplicação. Um drone mal calibrado desperdiça produto, aumenta a deriva e pode gerar responsabilidade legal. Para quem procura trabalho no campo, o recado é o inverso: com a maioria das empresas sem conseguir preencher vagas, o piloto certificado e com conhecimento agronômico virou um dos profissionais mais disputados do agro.





