Filé de frango sem abate e regra da Anvisa desde 2023: a carne cultivada é ameaça ou oportunidade para o pecuarista brasileiro?
A Embrapa já produziu protótipos de peito de frango a partir de células, e JBS e BRF investem na tecnologia. A carne cultivada ainda não está à venda no Brasil, mas o marco regulatório já existe

Em um laboratório da Embrapa Suínos e Aves, em Concórdia (SC), pesquisadores já produziram protótipos de filé de peito de frango sem abater nenhum animal. A técnica parte de uma pequena amostra de células, retirada do animal por biópsia, que é multiplicada em ambiente controlado até formar tecido muscular, segundo reportagem da Agência Brasil reproduzida pelo Movimento Econômico. É a chamada carne cultivada, também conhecida como carne de laboratório.
Como a técnica funciona
O processo combina biotecnologia e engenharia de tecidos. Os pesquisadores selecionam o tipo de célula desejado e focam em multiplicá-la em grande quantidade. Para crescer, porém, o tecido precisa de uma superfície de apoio que imite a estrutura dos organismos vivos. É aí que entra o trabalho do Laboratório de Nanobiotecnologia da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), em Brasília, que desenvolve biomateriais a partir de proteínas vegetais para servir de base às células.
O mesmo laboratório criou uma película comestível que funciona como tripa para embutidos, como linguiças, feitos com carne cultivada. Segundo o pesquisador Luciano Paulino da Silva, coordenador dos experimentos, o protótipo deve ficar pronto em 2027 e passar a integrar a vitrine de ativos tecnológicos da Embrapa, de acordo com a Agência Brasil.
A regra já existe
No campo regulatório, o Brasil saiu na frente de muitos países. Em 2023, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução RDC nº 839, que estabeleceu as regras para comprovar a segurança de novos alimentos e ingredientes, incluindo os obtidos por cultivo celular. Isso não significa que já exista carne cultivada à venda: cada produto precisa passar por avaliação de segurança específica antes de chegar ao mercado, além de atender às normas do Ministério da Agricultura e Pecuária.
No exterior, Singapura, Austrália, Israel e Estados Unidos já concederam aprovação regulatória e comercial para produtos cultivados, segundo a Embrapa.
Os frigoríficos estão no jogo
As maiores empresas brasileiras de proteína animal acompanham a tecnologia de perto. A BRF investiu US$ 2,5 milhões em 2021 na startup israelense Aleph Farms, que produz carne cultivada a partir de células bovinas. A JBS instalou em Florianópolis um centro de pesquisa e desenvolvimento voltado à proteína cultivada, com investimento estimado em US$ 62 milhões em três fases, segundo o Movimento Econômico. A Cellva Ingredients pesquisa gordura suína cultivada. A maior parte das iniciativas foca em produtos não estruturados, como hambúrgueres e embutidos.
Você comeria?
A aceitação do consumidor segue como uma das grandes incógnitas, e a própria Embrapa realiza pesquisas para entender como a população reage aos novos alimentos. O custo de produção em escala, que exige grandes biorreatores, é outro obstáculo. Também há resistência política: um projeto apresentado na Câmara propôs proibir a carne cultivada no país, sob o argumento de proteger a pecuária nacional, segundo o CompreRural.
O que muda para o produtor
No curto prazo, a carne cultivada não ameaça o boi a pasto nem o frango de granja: a escala ainda é de protótipo. No longo prazo, especialistas veem a tecnologia como complemento, não substituto. O fato de BRF e JBS investirem nela mostra que o setor prefere estar dentro dessa transformação a ser surpreendido por ela. Para o pecuarista, acompanhar o tema é parte de entender como o consumidor do futuro vai escolher sua proteína.





