Importação de tratores chineses salta 117% em 2026 enquanto vendas internas encolhem: o trator barato compensa para o produtor?
Levantamento da Anfavea mostra que China e Índia já respondem por 93% dos tratores importados, com foco nas máquinas de até 100 cv usadas por pequenas e médias propriedades.

As compras de tratores agrícolas fabricados na China cresceram 117% de janeiro a setembro de 2026 e chegaram a cerca de 5,2 mil unidades. O dado é da Anfavea, associação dos fabricantes de veículos e máquinas autopropulsadas, e foi divulgado nesta quarta-feira (21), segundo a agência Safras & Mercado.
A Índia enviou um volume parecido ao da China. Somados, os dois países responderam por 93% dos tratores importados pelo Brasil no período.
Importado já é o dobro do exportado
O avanço não se limita aos tratores. Segundo a Anfavea, as importações de máquinas agrícolas subiram 42% nos nove primeiros meses do ano, para 11,2 mil unidades. É mais que o dobro das cerca de 5 mil máquinas que o país exportou no mesmo período.
A tendência vem de antes. Em 2025, as importações já tinham somado 11 mil unidades, alta de 17%, e a balança do setor ficou negativa pelo segundo ano seguido, conforme números da entidade publicados pela Revista Cultivar em abril. Naquele ano, a China enviou 3,9 mil máquinas, crescimento de 85,7%, e a Índia liderou com 6 mil.
O alvo são os tratores de menor potência
O perfil do que entra no país ajuda a explicar o movimento. De acordo com a Anfavea, 90% dos tratores importados têm até 100 cv. Só na faixa de 50 a 100 cv foram 6.412 máquinas no acumulado de 2026, alta de 56%.
São modelos usados na agricultura familiar, em hortifrúti, na pecuária leiteira e em propriedades pequenas e médias, onde o preço de compra costuma pesar mais na decisão do que a tecnologia embarcada.
E o preço é o argumento principal. Levantamento da consultoria COGO Inteligência em Agronegócio, divulgado pela CNN Brasil em agosto, aponta tratores chineses chegando de 30% a 40% mais baratos que os das marcas tradicionais. Um estudo de competitividade citado pela Anfavea estima que fabricantes estrangeiros têm custos até 27% menores.
Mercado interno em queda
Enquanto o importado ganha espaço, o mercado como um todo encolhe. As vendas de máquinas agrícolas no varejo somaram 27 mil unidades até agosto, queda de 15,8%, segundo a Anfavea. Os tratores recuaram 14,1% e as colheitadeiras, 39,4%, no mesmo período. Atenção ao recorte: os dados de vendas internas vão até agosto, e os de importação, até setembro.
O cenário financeiro explica parte da retração. A Anfavea lembra que a Selic estava em 13,75% ao ano em setembro e que a inadimplência do crédito rural de pessoas físicas chegou a 9,7% em agosto, segundo dados do Banco Central compilados pela entidade. Com juro alto, o produtor adia a troca de máquinas ou procura a opção de menor desembolso.
Prefeituras e governos também têm buscado o preço menor. Dados do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) reunidos pela Anfavea mostram que 65% dos 3.318 tratores licitados em 2025 eram importados. Entre as máquinas agrícolas e rodoviárias compradas pelo poder público, as de origem chinesa ficaram com 26% do valor, perto de R$ 960 milhões. Para a entidade, as licitações deveriam levar em conta o custo total de propriedade, e não só o preço de compra.
O que pesar antes de comprar
Para o produtor, o preço de etiqueta é só uma parte da conta. Pesam também a rede de assistência técnica na região, o prazo de entrega de peças e o valor de revenda. Um trator parado na época de plantio pode custar mais que a diferença paga na compra. Vale pedir ao revendedor a lista de oficinas credenciadas e o prazo médio de reposição dos itens de desgaste.
O financiamento também muda. A linha Finame Rural, do BNDES, só financia bens credenciados no banco, em geral de fabricação nacional, e serve de fonte para programas como o Moderfrota. Por isso, antes de fechar negócio, convém confirmar se o modelo escolhido está credenciado. Para o agricultor familiar, o Pronaf Mais Alimentos, com juros próximos de 5%, tem sustentado a venda de tratores de baixa potência, segundo a Anfavea.
Os fabricantes chineses sabem disso. O estudo da COGO afirma que a estratégia de entrada dessas marcas inclui instalar fábricas no país e acessar linhas públicas como Finame e Moderfrota. Entre os projetos citados está uma unidade da YTO anunciada em Caruaru (PE).
O que acompanhar
Os próximos meses devem mostrar se a queda nas vendas internas perde força com o Plano Safra em andamento e se a montagem local de marcas chinesas sai do papel. Também vale observar a próxima reunião do Copom, que define o custo do crédito, e possíveis pedidos da indústria por mudanças nas regras de importação e de compras públicas. Para quem vai investir, o melhor caminho é comparar o custo total de cada máquina ao longo dos anos, não apenas o preço na nota.





