Erro de 28 milhões de bushels: o USDA corrigiu o milho. Dá para confiar no relatório que move o preço?
O NASS revisou os dados de setembro de Kansas e Nebraska por falha de processamento. Produtores americanos questionam a confiabilidade das estimativas, e o produtor brasileiro sente o reflexo em Chicago.

O relatório oficial que serve de referência para o milho no mundo inteiro passou por uma correção. Na sexta-feira, 23 de outubro, o Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas (NASS), do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), admitiu um "erro de processamento" nos dados de setembro de Kansas e Nebraska. Segundo a Reuters, a produtividade média americana foi revisada de 178,5 para 178,8 bushels por acre, e a produção, de 15,800 bilhões para 15,828 bilhões de bushels. A agência informou que os números de outubro foram revisados, validados e mantidos.
A diferença é de 28 milhões de bushels, algo como 0,2% da safra, ou cerca de 711 mil toneladas pela conversão padrão de 25,4 kg por bushel. Parece pouco, mas o estrago está na confiança. A Reuters lembra que a previsão original de setembro veio acima do esperado e derrubou os futuros em Chicago. E isso aconteceu depois de uma série de outras falhas nos dados do USDA, que traders, analistas e economistas já vinham criticando.
O que deu errado e quem reclamou
De acordo com reportagem do Notícias Agrícolas, no sábado (24) o NASS explicou que usou ponderações incorretas para as áreas irrigadas e não irrigadas. Com isso, Kansas caiu 3 bushels, para 119 por acre, e Nebraska subiu 5, para 182. O erro afetou população de plantas, contagem de espigas, produtividade e produção, além da média dos 10 estados pesquisados em campo.
A reação veio rápido. Matt Frostic, presidente da National Corn Growers Association (NCGA), afirmou que os relatórios causaram perdas de "bilhões de dólares" em valor de mercado. A entidade quer se reunir com o NASS, embora esse valor não tenha sido calculado de forma independente. Já Jim Wiesemeyer, da AgBull, ponderou que um erro de processamento não prova problemas na coleta de campo.
O ponto mais sensível é o salto entre os relatórios. Em 9 de outubro, o USDA elevou a produtividade nacional para 181,2 bushels por acre. Mesmo depois da correção, a diferença para setembro continua em 2,4 bushels. Só Nebraska passou de 177 para 188.
Como o USDA chega ao número
A estimativa americana combina várias bases. Uma delas é a pesquisa com produtores, a Agricultural Yield Survey. A outra é a Objective Yield, uma medição de campo: segundo o site do NASS, ela cobre 10 estados (Illinois, Indiana, Iowa, Kansas, Minnesota, Missouri, Nebraska, Ohio, Dakota do Sul e Wisconsin). Os técnicos contam plantas e espigas e enviam amostras ao laboratório, onde se mede o peso do grão e a umidade. O briefing oficial de setembro cita ainda imagens de satélite de alta resolução, um modelo de rendimento baseado no sensor VIIRS, da NOAA, e dados administrativos da Farm Service Agency e da Risk Management Agency.
Seth Meyer, ex-economista-chefe do USDA e hoje diretor do FAPRI, da Universidade do Missouri, disse ao AgWeb que os levantamentos de outubro já incorporam resultados de colheita, e que revisões não indicam, sozinhas, falha estatística.
Por que isso chega ao bolso do produtor brasileiro
Chicago é a referência para o preço do milho no Brasil. Segundo o Notícias Agrícolas, o contrato de dezembro fechou a sexta-feira (23) a US$ 4,56 por bushel, queda de 3,85% na semana. A pressão veio da produtividade maior estimada pelo USDA. Na B3, o vencimento de novembro terminou a R$ 65,53 por saca, recuo semanal de 1,56%. Em Mato Grosso, Gilberto Leal, da Granel Corretora, relatou ao Notícias Agrícolas que as usinas de etanol de milho baixaram a oferta de cerca de R$ 56 em meados de agosto para R$ 45 a R$ 46.
Ferramentas para não decidir no escuro
A principal lição é não depender de um único número. Nos EUA, estimativas privadas servem de contraponto: em agosto, a Pro Farmer projetou 173,2 bushels por acre com base no Crop Tour, que reuniu mais de 100 avaliadores em mais de 3.000 lavouras de sete estados. O USDA, na mesma época, apontava 180,7.
No Brasil, a Conab publica levantamentos mensais. O primeiro da safra 2026/27, de 15 de outubro, prevê cerca de 148 milhões de toneladas de milho. A estatal também divulga o Boletim de Monitoramento Agrícola, feito com o Inmet e o grupo Glam, que cruza dados de satélite e índices de vegetação com observações de campo. Em Mato Grosso, o Imea divulga dados semanais de comercialização, preço físico e paridade de exportação.
Na prática: antes de travar vendas, compare o número do USDA com as estimativas privadas e acompanhe as revisões de novembro. Cruze isso com os boletins da Conab e do Imea e com a curva da B3: o vencimento de março/27 fechou R$ 9,81 acima do de novembro/26. Vender em etapas, em vez de reagir a um único relatório, reduz o risco de decidir com base num dado que pode ser corrigido depois.





