Faturamento de máquinas agrícolas cai 21,6% e venda de colheitadeiras despenca 55,7%: o campo parou de renovar a frota?
Dados da Abimaq até setembro mostram mercado interno 24,8% menor, enquanto as exportações da indústria sobem 12,1% e os juros altos travam o investimento do produtor

O produtor brasileiro está adiando a troca da máquina, e a indústria sente no faturamento. De janeiro a setembro de 2026, a receita líquida da indústria de máquinas e implementos agrícolas somou R$ 41,47 bilhões, queda de 21,6% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a Abimaq, em dados divulgados em 28 de outubro.
No mercado interno, a retração é ainda maior: 24,8%. E no segmento mais caro do pátio, o tombo é ainda mais forte. A venda de colheitadeiras acumula queda de 55,7% no ano, segundo os números da entidade publicados pelo Jornal do Comércio.
Setembro trouxe alívio, mas não virada
O mês de setembro mostrou algum respiro. A receita do setor cresceu 8,2% em relação a agosto, segundo a CNN Brasil, mas ficou 15,7% abaixo de setembro de 2025. Ou seja: a base de comparação melhorou, mas o mercado continua bem menor do que era um ano atrás.
A Anfavea, que acompanha as vendas das montadoras de máquinas autopropelidas, já havia apontado recuo de 15,8% nas vendas no acumulado até agosto. Ao mesmo tempo, como a AgroForte mostrou nesta semana, as compras de tratores importados da China cresceram 117% no ano.
Indústria vende mais lá fora
Enquanto o comprador brasileiro segura o investimento, a indústria tenta compensar no exterior. As exportações de máquinas agrícolas somaram US$ 161,69 milhões em setembro, alta de 21,2% sobre agosto e de 8,4% sobre setembro de 2025. No acumulado de janeiro a setembro, chegaram a US$ 1,312 bilhão, crescimento de 12,1%, segundo a Abimaq.
As importações recuaram 4,2% no mesmo período, para US$ 902,6 milhões. Em setembro, o setor registrou superávit comercial de US$ 69,98 milhões.
O que trava a compra
A Abimaq aponta dois freios principais: juros elevados e endividamento dos produtores. Os dois estão ligados.
A carteira de crédito rural com problemas chegou a R$ 205,46 bilhões em agosto de 2026, ou 23,8% da carteira do agronegócio, contra 17,1% um ano antes, segundo dados do Banco Central citados pela Serasa Experian. Com parte relevante da renda comprometida com dívida, o produtor prioriza custeio e renegociação, e deixa a renovação da frota para depois.
O custo do dinheiro também piorou nos últimos dias. Depois do segundo turno, os contratos de juros futuros passaram a precificar alta da Selic, hoje em 13,75%, segundo reportagem da Bloomberg Línea. Para um investimento de longo prazo como uma colheitadeira, cada ponto de juro pesa no cálculo de retorno.
O efeito na tecnologia do campo
A frota mais velha tem um custo que não aparece na nota fiscal. As máquinas novas trazem piloto automático, controle de seção, taxa variável e telemetria, recursos que reduzem sobreposição, economizam insumo e diesel e geram dados para a gestão da lavoura. Adiar a renovação significa, muitas vezes, adiar também esses ganhos de eficiência.
Para quem não pode trocar a máquina agora, a modernização pode vir em etapas. Kits de agricultura de precisão instalados em equipamentos já existentes, manutenção preventiva rigorosa e contratação de serviços de terceiros na colheita são caminhos para preservar produtividade sem imobilizar capital num momento de juro alto.
O que esperar
A Abimaq projeta estabilidade e leve crescimento à frente, segundo a CNN Brasil. A recuperação, porém, depende de fatores fora do controle da indústria: o desempenho da safra 2026/27, que ainda corre risco climático no Centro-Oeste, o rumo dos juros depois do Copom de 3 e 4 de novembro e a capacidade do produtor de reorganizar o próprio balanço.
Para quem pretende comprar, o cenário dá poder de barganha: com demanda fraca, revendas e fabricantes tendem a negociar preço, prazo e condições de financiamento. O desafio é fazer a conta com o juro de hoje, e não com o que se esperava há duas semanas.





