EUA voltam a importar gado do México depois de comprar 389% mais carne do Brasil em setembro: a janela americana vai fechar?
A retomada na fronteira, depois da suspensão causada pela bicheira, ainda é tímida, com 8.450 cabeças em uma semana, mas pode reduzir no futuro a necessidade americana de carne importada.

Enquanto a China pisou no freio, os Estados Unidos aceleraram. Em setembro, o Brasil embarcou 48,3 mil toneladas de carne bovina para o mercado americano, 389% a mais que no mesmo mês de 2025, com receita de US$ 313,8 milhões (+333,8%), segundo dados da Abiec com base no MDIC. No mesmo mês, as vendas para a China despencaram 93,2%, para 12,9 mil toneladas, com o país asiático aplicando a salvaguarda sobre a carne importada.
No acumulado de janeiro a setembro, os EUA compraram 317,4 mil toneladas (+45%) e pagaram US$ 2,08 bilhões (+60,8%). Pela conta da AgroForte, isso equivale a cerca de 13% do volume e 15% da receita da carne bovina exportada pelo Brasil no período. É uma demanda que ajudou a sustentar a arroba num ano em que o principal cliente fechou a porta.
O que mudou na fronteira americana
A pergunta agora é quanto tempo essa janela fica aberta. Os EUA haviam suspendido por mais de um ano a importação de bovinos do México por causa do avanço da bicheira, a larva da mosca Cochliomyia hominivorax, que infesta feridas dos animais. Antes da suspensão, segundo reportagem da Texas Public Radio, o México enviava mais de 1 milhão de cabeças por ano aos EUA, em grande parte bezerros destinados aos confinamentos americanos.
O USDA anunciou a retomada gradual a partir de 24 de agosto de 2026, começando por Douglas, no Arizona, com inspeção obrigatória de cada animal e a possibilidade de nova pausa se o risco sanitário aumentar. Pontos de entrada no Novo México, como Santa Teresa, seriam reabertos depois.
Retomada ainda tímida
Os primeiros números mostram um fluxo modesto. Segundo levantamento da consultoria Pasto & Mercado publicado pelo Notícias Agrícolas em 14 de outubro, os EUA receberam 8.450 bovinos de recria do México na semana anterior, média de 1.690 cabeças por dia. Douglas respondeu por 76% dos animais, e Santa Teresa teve média de 410 cabeças por dia.
O ritmo ainda é pequeno diante do tamanho do déficit americano. O rebanho dos EUA somava 86,2 milhões de cabeças em 1º de janeiro, o menor nível em décadas, e o número de animais em confinamento estava 3% abaixo do ano anterior, segundo dados citados pela Texas Public Radio.
Gado hoje, carne só depois
Há uma diferença importante entre importar boi e importar carne. Os bezerros mexicanos ainda precisam passar pela recria e pela engorda antes do abate, o que leva meses. Ou seja, a reabertura não tira de imediato a necessidade americana de carne importada. Ela pode, porém, reduzir essa pressão mais à frente, se o fluxo crescer de forma sustentada.
Para o exportador brasileiro, o ponto decisivo é saber quando e com que intensidade esses animais vão virar carne nos frigoríficos americanos. Uma semana de dados não permite concluir que o abastecimento esteja normalizado, e o próprio USDA mantém a possibilidade de suspender de novo as compras.
O que isso significa para a arroba
No Brasil, o mercado segue firme. O Indicador do Boi Gordo Cepea/Esalq fechou a R$ 380,20 por arroba em 15 de outubro, e o contrato de novembro na B3 terminou o dia a R$ 396,00. Com a China limitada pela cota, a demanda americana é hoje uma das peças que sustentam esse preço.
Para o pecuarista, vale acompanhar dois termômetros nas próximas semanas: o volume semanal de gado mexicano cruzando a fronteira e os embarques de carne para os EUA na parcial da Secex. Se o primeiro subir e o segundo cair, a janela americana começa a se estreitar.






