México libera frango de fora de SC em 12 dias, mas custo de R$ 4,96 supera preço de R$ 4,75 no Paraná: o aperto está no porto ou na ração?
Regionalização reduz o risco comercial da Newcastle, enquanto farelo 27,5% mais caro e relação de troca pior corroem a margem de quem cria

A avicultura brasileira recebeu uma boa notícia no porto e um alerta na granja na mesma semana. Em 30 de outubro, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informou que o México reconheceu a regionalização sanitária para a doença de Newcastle, doze dias após o primeiro foco reportado. Com isso, as restrições comerciais ficam delimitadas, neste momento, a Santa Catarina, preservando embarques de outras origens habilitadas.
Um dia antes, o boletim do Departamento de Economia Rural (Deral), do Paraná, mostrava outro lado do negócio: em setembro, o custo de referência do frango chegou a R$ 4,96 por quilo, enquanto o preço médio pago ao produtor ficou em R$ 4,75. A diferença de R$ 0,21 por quilo deixa a remuneração 4,23% abaixo do custo calculado. E esse número foi fechado antes mesmo do primeiro caso de Newcastle.
O que muda com a decisão do México
O foco inicial foi confirmado em 18 de outubro, em uma criação comercial de perus em Nova Itaberaba, no Oeste catarinense. Dias depois, o México suspendeu as compras com alcance nacional. A nova decisão reduz esse alcance. Segundo a ABPA, o resultado vem de negociação técnica conduzida pelo Ministério da Agricultura, pelo Itamaraty e pela representação brasileira no México, em articulação com o setor produtivo.
O episódio não terminou. Novos focos foram confirmados em Santa Catarina nas semanas seguintes, e outros mercados adotaram restrições. Conforme atualização do Ministério da Agricultura citada pelo Itaú BBA, China e Arábia Saudita suspenderam produtos de aves catarinenses, o Chile adotou restrições estaduais e a Malásia aplicou suspensão de alcance nacional, embora com produtos diferentes em cada caso. A África do Sul também barrou carne de frango com origem na área dos focos, em notícia de 28 de outubro.
Santa Catarina carrega o risco maior
Para o Itaú BBA, o impacto agregado sobre a avicultura brasileira tende a ser limitado, mas a exposição catarinense é bem maior. O estado produziu cerca de 1,915 milhão de toneladas de frango em 2025 e destinou aproximadamente 1,2 milhão ao exterior, ou 63% da produção, contra média nacional próxima de 37%. Santa Catarina respondeu por 13,4% da produção do país, mas concentrou 22,5% do volume exportado e 25% da receita cambial do setor, com US$ 2,45 bilhões.
O banco lista como riscos o acúmulo de estoques, a despesa com armazenagem e a venda para mercados de preço menor. Caso os embargos se prolonguem, parte da carne pode voltar ao mercado interno no primeiro trimestre de 2027, período de consumo mais fraco, pressionando preços. O relatório não apresenta estimativa de prejuízo e trata o efeito como possibilidade, não como previsão. Nos episódios de 2024 e 2025, citados pelo banco, a reabertura levou tempo: no caso da influenza aviária de 2025, as compras chinesas demoraram cerca de seis meses para voltar.
A margem apertou por causa da ração
O dado do Paraná mostra que o aperto não nasceu no embargo. Em setembro, o custo avançou 2,27% sobre agosto e acumulou alta de 7,13% em 12 meses, enquanto o preço recebido subiu só 0,42% no mês e ficou 4,63% abaixo do de um ano antes. As despesas com ração cresceram 5,06% em setembro, e a nutrição respondeu por 65,55% do índice de custos.
A relação de troca piorou. Para comprar uma tonelada de milho, o produtor precisava de 233 quilos de frango vivo, 13,7% mais que um ano antes. No farelo de soja, negociado a R$ 2.171,40 por tonelada, 27,5% acima de setembro de 2025, foram necessários 457 quilos, aumento de 33,2%. O Deral ressalta que o custo calculado segue o sistema acompanhado pela Embrapa Suínos e Aves e não reflete necessariamente todas as propriedades.
O que observar nas próximas semanas
Houve reação em outubro: o frango vivo chegou a R$ 4,99 por quilo no Paraná em 29 de outubro. Mas o custo do mês ainda não foi consolidado, e o atacado paulista perdeu força, com o resfriado do Cepea caindo de R$ 8,50 para R$ 8,26 por quilo em uma semana. As exportações seguem fortes, com 4,421 milhões de toneladas de janeiro a setembro, alta de 14%, segundo a ABPA.
Para o integrado e para o produtor independente, a regionalização protege o escoamento nacional, mas não paga a ração. A próxima leitura do Deral, a velocidade de reabertura dos demais mercados e o comportamento do milho, que caiu em outubro, dirão se a recuperação de preço foi suficiente para devolver margem à granja.






