Importação de lácteos sobe 26,4% e déficit chega a US$ 834 milhões: o dólar a R$ 5,40 devolve espaço ao leite brasileiro?
Com o produtor precisando de 4% mais leite para comprar a mesma ração e o preço parado em R$ 2,89 o litro, o salto do câmbio encarece o importado, mas também o milho e o farelo

O Brasil importou 243,1 milhões de litros equivalentes de lácteos em setembro de 2026, alta de 26,4% sobre setembro de 2025. No mesmo mês, exportou 5,4 milhões de litros. De janeiro a setembro, o déficit da balança comercial de lácteos chegou a US$ 834 milhões, o equivalente a 1,882 bilhão de litros.
Os números são do boletim Indicadores Leite e Derivados de outubro, do Centro de Inteligência do Leite da Embrapa Gado de Leite, divulgado em meados do mês. Eles descrevem um mercado em que o produto de fora entra cada vez mais, enquanto o produtor brasileiro perde poder de compra.
O leite compra menos ração
A relação de troca medida pela Embrapa compara quantos litros de leite são necessários para comprar 60 quilos de uma mistura de 70% de milho e 30% de farelo de soja. Em agosto de 2026, eram 28,5 litros, contra 27,4 em julho. Em um mês, o produtor precisou de 4% mais leite para pagar a mesma quantidade de ração.
Na comparação com agosto de 2025, quando eram necessários 29,6 litros, a relação ainda é melhor. Mas a direção recente preocupa porque coincide com a pressão das importações.
O preço ao produtor não acompanhou. O Indicador Cepea de leite ao produtor com fechamento em 1º de outubro marcava média Brasil de R$ 2,8869 por litro, alta de apenas 0,38%. Por estado, Minas Gerais estava em R$ 3,0446, São Paulo em R$ 2,9760, Goiás em R$ 2,9692, Paraná em R$ 2,9235, Santa Catarina em R$ 2,7758 e Rio Grande do Sul em R$ 2,6545, o menor valor entre os principais estados.
O dólar pode mudar o jogo
Até a semana passada, o real forte favorecia a importação de lácteos. Na sexta-feira, 23 de outubro, o dólar ainda fechou a R$ 4,99, segundo a Exame. Isso mudou na segunda-feira, 26 de outubro: a moeda americana subiu 8,21% em um único dia e fechou a R$ 5,403, maior alta diária desde janeiro de 1999, depois da confirmação da reeleição do presidente Lula.
Na prática, um câmbio 8% mais alto encarece na mesma proporção o leite em pó e o queijo comprados em dólar, antes de considerar qualquer variação de preço no mercado internacional. Se o dólar se sustentar nesse patamar, a vantagem do importado sobre o produto nacional encolhe, e a indústria tende a voltar a disputar o leite captado no país.
O efeito não é imediato. Contratos de importação já fechados chegam nas próximas semanas com o câmbio antigo, e o mercado ainda testa se o novo patamar do dólar é permanente. Mas, desta vez, a variável cambial passa a jogar a favor do produtor de leite.
A outra metade da conta: o custo
O mesmo dólar que pode frear a importação também pressiona o custo de produção. Milho e farelo de soja são cotados com referência em paridade de exportação, e o câmbio mais alto puxa os dois para cima.
Os sinais já apareceram. Na B3, os contratos de milho subiram mais de 3% no início da semana, segundo o Agrolink, na contramão de Chicago. O indicador Cepea da soja em Paranaguá subiu 2,06% em 26 de outubro, para R$ 155,55 a saca. Se a ração subir mais rápido do que o leite, a relação de troca piora de novo, mesmo com menos importação.
O que fazer na propriedade
Garantir o volumoso. Silagem e pasto bem manejados reduzem a dependência de concentrado, justamente o componente mais exposto ao câmbio.
Antecipar a compra de milho e farelo, se houver caixa. O efeito do dólar sobre os grãos tende a ser mais rápido que o efeito sobre o preço do leite.
Acompanhar o preço pago pelo laticínio nos próximos dois meses. Se a importação desacelerar, a disputa por leite captado no país é o primeiro sinal de que o produtor pode negociar melhor.






