Exportação de carne bovina cai 40% em outubro, mas arroba chega a R$ 379: por que o boi não cede?
Com a China travada pela cota, os embarques diários despencam; ainda assim, a oferta curta de animais segura o indicador do Cepea em alta e o mercado futuro já paga mais de R$ 390 para novembro.

À primeira vista, os números não combinam. A carne bovina brasileira está saindo do país em ritmo bem mais lento do que há um ano, e mesmo assim o preço do boi gordo segue subindo semana após semana. A explicação está menos no porto e mais no pasto: falta boi pronto para abate, e o pecuarista sabe disso.
O que mostram os dados da Secex
Segundo a parcial da Secex (Secretaria de Comércio Exterior), referente aos sete primeiros dias úteis de outubro, o Brasil embarcou em média 8,76 mil toneladas de carne bovina por dia, contra 14,57 mil toneladas na média diária de outubro de 2025. É uma queda de 39,9%. A receita diária caiu 33,1%, de US$ 80,70 milhões para US$ 53,99 milhões.
O tombo só não foi maior porque o preço subiu. A tonelada exportada saiu, em média, a US$ 6.163,30, alta de 11,3% sobre um ano antes. Vale o cuidado de sempre: parciais de início de mês oscilam bastante, e o resultado fechado de outubro só sai no começo de novembro.
O movimento confirma o que já aparecia em setembro. De acordo com levantamento do Farmnews com base nos dados oficiais, o país exportou 195,19 mil toneladas de carne bovina in natura no mês passado, 38% a menos que em setembro de 2025. Os embarques para a China caíram 94,2%, para 10,88 mil toneladas, em razão da cota de importação imposta pelo país asiático. Os Estados Unidos compraram 44,44 mil toneladas, um recorde histórico, e compensaram parte da perda.
Por que a arroba sobe mesmo assim
O Indicador do Boi Gordo Cepea/Esalq fechou a R$ 379,40 por arroba em 14 de outubro, alta de 0,37% no dia. Até o dia 13, a valorização acumulada em outubro no estado de São Paulo era de 3,76%, segundo o Cepea.
O centro de pesquisa da Esalq/USP atribui a firmeza à oferta restrita de animais para abate e à resistência dos produtores em negociar. Em São Paulo, os negócios giraram entre R$ 370 e R$ 380 por arroba, com operações pontuais a R$ 385, e parte dos pecuaristas já espera ofertas de R$ 390. As chuvas nas regiões de Bauru e Presidente Prudente também atrapalharam o embarque de animais, o que reduziu ainda mais a disponibilidade.
As escalas de abate encurtaram em relação a setembro. No Pará, os frigoríficos programavam entre 2 e 6 dias; em Sorriso (MT), cerca de uma semana, com lotes menores. No atacado, a carcaça casada do boi na Grande São Paulo teve média de R$ 25,60 por quilo, alta de 3,27% no mês.
O que o mercado futuro está dizendo
Na B3, os contratos de boi gordo fecharam em queda em 14/10, mas seguem acima do mercado físico. O vencimento de outubro terminou a R$ 385,25 por arroba (-0,94%), novembro a R$ 394,30 (-0,84%), dezembro a R$ 393,15 (-0,59%) e janeiro de 2027 a R$ 394,00 (-0,23%).
Na prática, o mercado aposta que a oferta curta continua até o fim do ano, mas a queda generalizada no pregão mostra que existe cautela. A demanda interna por carne segue lenta, segundo relatos de mercado do próprio Cepea, e a exportação depende cada vez mais dos Estados Unidos enquanto a China opera sob cota.
O que observar na fazenda
Para quem faz recria e engorda, a conta da reposição também mudou. A Scot Consultoria cotou o bezerro Nelore de 8 arrobas a R$ 3.870,29 por cabeça em São Paulo e a R$ 3.927,22 em Mato Grosso, em 14/10. Com a arroba do boi a R$ 379,40, um bezerro paulista equivale a cerca de 10,2 arrobas de boi gordo.
Os três pontos a acompanhar nas próximas semanas são a parcial semanal da Secex, que vai mostrar se o ritmo de embarques se recupera, o comportamento das escalas dos frigoríficos e a diferença entre o físico e a B3. Ferramentas de proteção de preço, como contratos futuros e opções, permitem garantir parte dessa diferença, mas a decisão depende do custo de produção e do perfil de cada operação, e deve ser avaliada com assessoria especializada.






