Água nas hidrelétricas chega a 201% da média no Sul e 50% no Nordeste: novembro vai dividir a safra 2026/27 em dois Brasis?
Projeções do ONS e do Inmet apontam excesso no Sul, déficit no Matopiba e calor acima da média em todas as regiões do país

O boletim do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) divulgado em 30 de outubro foi escrito para o setor de energia, mas serve como retrato do mapa que o produtor vai enfrentar em novembro. A energia natural afluente, que mede a água que chega às hidrelétricas, deve alcançar 201% da média histórica no Sul e 145% no Sudeste/Centro-Oeste. No Nordeste, a projeção é de 50%, e no Norte, de 39%.
Não é um indicador de chuva sobre a lavoura, mas aponta na mesma direção do prognóstico do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que espera intensificação dos efeitos do El Niño no mês: chuva acima da média no Sul, em Mato Grosso do Sul, em São Paulo e em algumas áreas do Norte, e precipitação abaixo do normal em grande parte da porção centro-norte do país.
No Sul, o problema é entrar na lavoura
O Inmet projeta anomalias de pelo menos 75 mm na Região Sul. Os maiores excessos são esperados entre o Noroeste e o Centro Ocidental do Rio Grande do Sul, onde o acumulado pode superar a média em 150 mm.
Segundo o instituto, o excesso de umidade pode dificultar o manejo do solo e a entrada de máquinas para semear soja, com atrasos e prejuízo à emergência. No trigo e na canola em fase final de ciclo, as instabilidades favorecem a germinação de grãos nas espigas e o debulhamento, com perda de qualidade e rentabilidade. Nas áreas já estabelecidas, a chuva tende a ajudar o crescimento, mas persiste o risco de vendavais, granizo e chuvas intensas. As pastagens, por outro lado, devem crescer de forma acelerada.
No Matopiba, falta a água para a safra pegar
A situação se inverte no Centro-Norte. O Inmet aponta as maiores reduções de chuva em áreas produtoras como o oeste da Bahia e o sul do Piauí e do Maranhão, com calor que pode ficar até 2 °C acima da média no sul do Piauí e nas regiões central e oeste da Bahia. A combinação limita a recuperação da umidade do solo e pode comprometer a emergência das lavouras de sequeiro.
O quadro chega em um momento delicado: pelo levantamento da Conab até 23 de outubro, Pará e Tocantins seguiam com trabalhos lentos e pontuais por causa da irregularidade das chuvas, e Maranhão e Piauí apenas começavam a semeadura em algumas regiões. Entre 30 de outubro e 2 de novembro, o Inmet ainda manteve aviso de baixa umidade em áreas do Nordeste, com máximas previstas de até 38 °C em Teresina.
O Centro-Oeste corre na frente, com ressalvas
Mato Grosso, que puxa a safra, tem a vantagem do calendário. O Imea informou que o plantio atingiu 89,05% da área projetada, contra 76,13% há um ano e 78,47% na média de cinco anos. No país, a Conab registrou 42,8% da área semeada até 23 de outubro, acima dos 34,8% de 2025 e da média de 40,2%.
Ainda assim, o Inmet prevê chuva abaixo da média no Noroeste de Mato Grosso e no Norte de Goiás, com temperaturas elevadas e risco de emergência irregular e redução do estande. Em Mato Grosso do Sul, a continuidade das chuvas pode favorecer o desenvolvimento das lavouras e a manutenção das pastagens.
Café, cana e o risco que vai além da soja
O prognóstico alcança outras culturas. Em Minas Gerais e no Espírito Santo, o Inmet alerta que déficit hídrico e calor durante a florada podem favorecer a queda de flores e chumbinhos, comprometendo o potencial da safra 2027, sobretudo em lavouras de sequeiro. Na cana, o efeito já aparece: a moagem da primeira quinzena de outubro foi de 32 milhões de toneladas, 18% menor que no ano anterior, com chuvas persistentes no Centro-Sul, segundo dados do Ministério da Agricultura citados no mercado de açúcar.
O que o produtor pode fazer agora
Mais do que a média nacional, novembro vai exigir leitura regional. No Sul, a prioridade é aproveitar as janelas de tempo seco para semeadura e colheita do trigo. No Matopiba e no norte do Centro-Oeste, o Inmet recomenda acompanhar a previsão de curto prazo antes de plantar nas áreas ainda não semeadas, para reduzir falhas de estande.
A produção de soja de 2026/27 segue no centro do debate: Chau Hue, da Stag Securities, relatou ao Notícias Agrícolas redução dos prêmios da safra nova e vê novas pressões se novembro confirmar clima favorável às lavouras. Se o desenho do ONS e do Inmet se confirmar, o país pode terminar o mês com dois problemas opostos ao mesmo tempo, e a mesma média nacional escondendo os dois.






