Focos de incêndio disparam 253% no Amazonas em outubro: o que está em jogo para um rebanho de 2,69 milhões de cabeças?
Com El Niño, calor e estiagem, Lábrea, Autazes e Boca do Acre lideram as ocorrências, e o governo federal reconhece emergência em 36 municípios.

O fogo voltou a avançar sobre o Amazonas, e desta vez em ritmo acelerado. Nas duas primeiras semanas de outubro, o estado somou 1.679 ocorrências de incêndio, 253% a mais que no mesmo período de 2025, segundo dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) reunidos pelo CompreRural em 16 de outubro. Só nos dez primeiros dias do mês foram 1.380 focos, contra 372 um ano antes, alta de 271%.
A escalada vem de antes. Em setembro, o estado registrou 3.726 focos, quase quatro vezes o total do mesmo mês de 2025. No acumulado de 1º de janeiro a 12 de outubro, foram 7.815 focos, 116% a mais que no ano passado, embora ainda abaixo de 2024, ano de seca severa na região.
O fogo está onde está o boi
Os dados de monitoramento do Inpe para os primeiros 12 dias de outubro mostram os focos concentrados em três municípios: Lábrea (225), Autazes (151) e Boca do Acre (118). A lista coincide com o mapa da pecuária amazonense. Lábrea tem o maior rebanho bovino do estado, Boca do Acre reúne cerca de 480 mil cabeças e Apuí, também no sul do estado, passa de 312 mil, segundo o IBGE (2025).
No total, o Amazonas tem 2,69 milhões de bovinos, 173,8 mil búfalos e quase 5,9 milhões de galináceos. Na agricultura, a mandioca é a lavoura de maior valor, com cerca de R$ 1,31 bilhão em 2025, seguida da banana (cerca de R$ 657 milhões) e do açaí cultivado (cerca de R$ 250 milhões).
Ainda não há base para estimar perdas generalizadas na agropecuária. Os riscos imediatos, porém, já estão no dia a dia das fazendas: fogo se aproximando de pastos e cercas, necessidade de abrir e manter aceiros, mobilização de trabalhadores e dificuldade de acesso às propriedades.
El Niño, calor e estiagem
O cenário combina El Niño, temperaturas altas, estiagem e pouca chuva. Alertas vinham sendo emitidos desde agosto, com a previsão de que o fenômeno pode se estender até o início de 2027. Com a vegetação seca, queimadas feitas para limpeza de áreas escapam com facilidade. Autoridades federais afirmam que parte dos incêndios tem indícios de origem humana deliberada, e o Ibama já extinguiu centenas de focos nesta temporada.
O governo federal reconheceu situação de emergência em 36 municípios amazonenses.
Fumaça e rios baixos
A fumaça é outro problema para quem trabalha a céu aberto. Em 13 de outubro, estações do sistema Selva registraram cerca de 324 microgramas por metro cúbico de material particulado fino (PM2,5) em Autazes, entre 154 e 160 em Itacoatiara, 147 em Maués e cerca de 156 em São Sebastião do Uatumã. Em Manaus, houve suspensão de aulas e restrição a atividades ao ar livre.
A seca também ameaça a logística. Num estado em que boa parte do transporte depende dos rios, o Ministério Público de Contas do Amazonas alertou que a queda no nível das águas pode dificultar o deslocamento de pessoas, alimentos, insumos e combustíveis. Para o produtor, isso significa risco de atraso na chegada de ração, sal mineral, vacinas e diesel, e na saída da produção.
O que o produtor pode fazer agora
As recomendações das autoridades são diretas: acompanhar os alertas de clima e de focos de calor, revisar e ampliar os aceiros, não usar fogo nos períodos proibidos e reduzir a exposição dos trabalhadores à fumaça. Para quem tem gado em áreas de risco, vale planejar com antecedência rotas de manejo e fontes de água.
Com o El Niño podendo durar até o início de 2027, a temporada seca deste ano pode ser longa. A pergunta que fica é quanto do prejuízo ainda pode ser evitado com prevenção no campo.






