Moagem de cana cai 17,8% em 15 dias e açúcar despenca 23%: a chuva do El Niño virou o jogo da safra?
Usinas processaram 32 milhões de toneladas na primeira quinzena de outubro, ante 39 milhões um ano antes; Nova York reage, mas o real fraco limita a alta

A chuva que o produtor de grãos esperava para plantar a soja chegou, e chegou forte. Para o setor sucroenergético, ela cobrou a conta rapidamente. As usinas brasileiras moeram 32,04 milhões de toneladas de cana na primeira quinzena de outubro, queda de 17,79% em relação às 38,97 milhões de toneladas do mesmo período de 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) divulgados na noite de quarta-feira (28).
O tombo na produção foi ainda maior. A fabricação de açúcar recuou 23,25%, para 2,15 milhões de toneladas, contra 2,80 milhões um ano antes. O etanol caiu 21,80%, para 1,77 bilhão de litros.
O que a chuva fez com a safra
Com o solo encharcado, colhedoras e caminhões não entram no canavial, e a moagem para. É o efeito direto das chuvas persistentes no Centro-Sul, associadas ao El Niño, que interrompem o trabalho de campo. A consultoria StoneX, citada pelo Notícias Agrícolas, indica que as previsões para os próximos sete dias apontam continuidade das precipitações nas regiões produtoras de cana, o que pode manter as operações prejudicadas.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mantinha nesta sexta-feira (30) aviso amarelo para chuvas intensas em áreas do Centro-Oeste e do Sudeste, com volumes de 20 a 30 milímetros por hora ou até 50 milímetros por dia.
O acumulado mostra uma safra mais alcooleira
No acumulado da safra 2026/27 até a primeira quinzena de outubro, a moagem soma 528,11 milhões de toneladas, 2,77% a menos que no ciclo anterior. A diferença está no mix: a produção de açúcar acumulada caiu 14,12%, para 31,57 milhões de toneladas, enquanto o etanol cresceu 5,97%, para 28,11 bilhões de litros.
O Centro-Sul responde por 509,66 milhões de toneladas processadas, 30,80 milhões de toneladas de açúcar e 26,45 bilhões de litros de etanol. São Paulo lidera, com 287,60 milhões de toneladas, seguido de Goiás (70,04 milhões) e Minas Gerais (67,65 milhões). No Nordeste, a moagem acumulada até 15 de outubro chegou a 13,21 milhões de toneladas.
Nova York reage, mas o câmbio segura
O mercado internacional respondeu. Na quinta-feira (29), o açúcar bruto para março de 2027 subiu 13 pontos na bolsa de Nova York, para 19,47 centavos de dólar por libra-peso. Em Londres, o açúcar branco para dezembro avançou 190 pontos, para US$ 527,60 por tonelada. O Brasil responde por cerca de 24% da produção mundial e por mais da metade das exportações globais de açúcar, segundo estimativas da Organização Internacional do Açúcar (OIC) e do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A alta, porém, não apagou as perdas da semana. Na segunda-feira (26), o açúcar caiu com força em meio à desvalorização do real após o segundo turno das eleições. Real mais fraco estimula o exportador brasileiro a vender, porque cada dólar rende mais reais, e isso tende a limitar a alta em Nova York.
No balanço global, a Covrig Analytics elevou a estimativa de déficit mundial de açúcar em 2026/27 para 490 mil toneladas, ante 300 mil toneladas na projeção anterior. Na Índia, a produção somava 400 mil toneladas até 25 de outubro, abaixo das 600 mil de um ano antes, segundo a associação indiana do setor (ISMA), mas o país carrega estoques de 3,6 milhões de toneladas da safra passada.
O que muda para o produtor
No mercado interno, os preços já sentem a oferta menor. O Indicador do Açúcar Cristal Cepea/Esalq em São Paulo fechou a quinta-feira em R$ 129,97 por saca, alta de 0,96% no dia. Na B3, o etanol hidratado para novembro subiu 3,15%, para R$ 3.110 por metro cúbico, e o vencimento dezembro foi a R$ 3.150.
Para o fornecedor de cana, a conta tem dois lados. A chuva atrasa o corte e pode deixar cana em pé para a próxima safra, o que adia receita. Por outro lado, preços mais firmes de açúcar e etanol tendem a sustentar o valor do ATR, que remunera a cana entregue às usinas. Vale acompanhar os boletins quinzenais e o ritmo de colheita antes de fechar novos contratos.
A pergunta que fica para novembro é se a chuva vai dar trégua a tempo de as usinas recuperarem o ritmo, ou se a safra 2026/27 terminará com mais cana no campo e menos açúcar no porto.






