El Niño pode tirar 17,6 milhões de toneladas da soja e R$ 33 bilhões do campo: por que Mato Grosso e Goiás concentram quase 80% do risco?
Primeiro estudo climático da Serasa Experian cruza 20 anos de mapeamento com dados da Conab e da NOAA; Rio Grande do Sul pode até ganhar volume

O Brasil plantou a maior área de soja da sua história e, ainda assim, pode colher bem menos do que espera. Num cenário de El Niño forte, semelhante ao da safra 2023/24, a produção nacional de soja em 2026/27 cairia de 181,2 milhões para 163,6 milhões de toneladas. A diferença, de 17,6 milhões de toneladas, equivale a cerca de R$ 33 bilhões em produção potencialmente afetada.
Os números são do primeiro estudo da Serasa Experian sobre impactos climáticos na produção agrícola, apresentado na terça-feira (27). A própria empresa faz uma ressalva importante: trata-se de um exercício de dimensionamento de risco, não de uma previsão para a safra.
O tamanho do risco
Uma queda de 17,6 milhões de toneladas representa recuo de 9,7% sobre o cenário neutro. Para chegar aos R$ 33 bilhões, a Serasa multiplicou o volume perdido por um preço médio de cerca de R$ 1.880 por tonelada, com base no Valor Bruto da Produção (VBP) da soja usado em agosto. Comparado à estimativa de setembro de 2026 para o VBP da oleaginosa, de R$ 352,7 bilhões, o impacto corresponde a cerca de 9,4% do faturamento da cultura, segundo a reportagem da Forbes Agro.
O estudo considera área plantada de 49,9 milhões de hectares, um pouco acima dos 49,3 milhões de hectares projetados pela Conab, e mantém a área igual nos dois cenários. Ou seja: toda a diferença vem da produtividade.
Onde a conta pesa
Mato Grosso e Goiás concentram quase 80% da perda projetada. Em Mato Grosso, a produção passaria de cerca de 51 milhões para cerca de 41 milhões de toneladas, uma perda potencial de 9,7 milhões de toneladas, com a produtividade caindo de 4.028 para 3.266 kg por hectare. O estado já tinha cerca de 70% da área semeada quando o estudo foi apresentado, e o risco maior está nas chuvas de novembro a janeiro, período de floração e enchimento de grãos.
Em Goiás, o déficit potencial é de 4 milhões de toneladas, concentrado nas áreas de sequeiro do norte e do leste do estado. Minas Gerais perderia 1,5 milhão de toneladas.
O Rio Grande do Sul segue na direção oposta. Com mais chuva, a produção gaúcha poderia subir de 16 milhões para até 22 milhões de toneladas. Mas o próprio estudo alerta que o excesso de umidade pode causar encharcamento, dificuldade de colheita e mais pressão de doenças, um cenário que já preocupa o estado, onde o plantio está atrasado pelas chuvas.
Como o número foi calculado
A Serasa cruzou mais de 20 anos de mapeamento territorial próprio com dados de produtividade da Conab e com o Índice Oceânico Niño (ONI), da agência americana NOAA. A metodologia compara a safra 2023/24, marcada por El Niño severo, com a 2024/25, climaticamente neutra, e aplica essas diferenças à área projetada para 2026/27.
O estudo cobre apenas a soja. Riscos para o milho safrinha e o algodão, como atraso de plantio e replantio, não foram quantificados. Segundo o gerente de geoprocessamento da Serasa, Daniel de Oliveira, área maior não garante safra maior quando o clima vira.
O elo com a dívida
O alerta climático chega num momento delicado para o caixa do produtor. A carteira de crédito rural com problemas somava R$ 205,46 bilhões em agosto de 2026, ou 23,8% de uma carteira de R$ 864,24 bilhões, segundo dados do Banco Central citados pela Serasa. Um ano antes, eram R$ 140,9 bilhões, ou 17,1% do total. No segundo trimestre, o agro registrou 448 pedidos de recuperação judicial.
Para o head de agronegócio da Serasa, Marcelo Pimenta, o efeito sobre a inadimplência vai depender da situação financeira e da localização de cada produtor. Os mais expostos são os que combinam risco climático alto e endividamento pesado, sobretudo quem arrendou terra contando com produtividades irreais.
O que o produtor pode fazer
A Conab ainda projeta 181,6 milhões de toneladas de soja e 366,6 milhões de toneladas de grãos em 2026/27, e o cenário da Serasa não é destino. Mas ele indica onde a gestão de risco precisa ser mais rigorosa: escolha de cultivares mais tolerantes ao estresse hídrico, escalonamento do plantio, irrigação onde for viável e controle apertado de custo, caixa e dívida.
No Centro-Oeste, as próximas oito a dez semanas de chuva vão decidir se os R$ 33 bilhões ficam no papel ou saem do bolso do produtor.






