NOAA vê 83% de chance de El Niño mais forte desde 1950: onde a safra 2026/27 corre mais risco?
Com o Pacífico perto de patamares recordes, o mapa de riscos vai do excesso de chuva no trigo e na semeadura do Sul à seca que ameaça soja, pastagens e a janela da safrinha no Centro-Norte.

O El Niño em curso tem 83% de chance de se tornar o mais intenso já registrado desde 1950 no trimestre outubro-dezembro de 2026. A estimativa está na discussão diagnóstica publicada em 8 de outubro pelo Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos. O critério é uma média trimestral de ao menos +2,5 °C no índice relativo RONI. Para novembro-janeiro, a chance é de 70%.
O mesmo boletim afirma que um El Niño de forte a muito forte é provável até janeiro-março de 2027, com probabilidade acima de 83%, e que o aquecimento deve continuar até o fim do ano. A próxima atualização da NOAA sai em 12 de novembro.
O Pacífico perto dos recordes
Os números observados ajudam a explicar o tom do alerta. Segundo o Inmet, a anomalia na região Niño 3.4, principal termômetro do fenômeno, chegou a +2,08 °C em setembro. É o segundo maior valor para o mês desde 1950, abaixo apenas de setembro de 1997, quando marcou +2,15 °C. Na última semana de setembro, a área Niño 1+2, junto à costa da América do Sul, registrou +4,5 °C, a apenas 0,1 °C do recorde de junho de 1983.
Há uma ressalva: a intensidade no oceano não se traduz automaticamente em impactos da mesma proporção em cada município.
Sul: chuva demais na hora errada
O quarto boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por Inpe, Inmet, ANA, Cemaden, SGB, Sedec e Censipam, indica maior probabilidade de chuva acima da média no Sul em outubro-dezembro. Para o milho de primeira safra, a umidade é favorável. Para o restante, o quadro é mais delicado.
O painel aponta risco elevado de doenças fúngicas no trigo, como a giberela, além de atraso na colheita e perda de qualidade dos grãos, com destaque para o Paraná. Também prevê dificuldade de semeadura da soja e do arroz irrigado por excesso de umidade, além de impacto no planejamento do milho segunda safra na região.
O calendário confirma a cautela. Pelo levantamento da Conab divulgado em 20 de outubro, o Rio Grande do Sul tinha apenas 1% da área de soja semeada, contra 39% no Paraná e 10,9% em Santa Catarina.
Centro-Norte: soja plantada cedo e pasto sob pressão
No centro-norte de Mato Grosso, no norte de Goiás, no Distrito Federal e em boa parte da Amazônia Legal e do Matopiba, a tendência é de chuva abaixo da média e calor acima do normal, segundo o painel. O início regular da estação chuvosa no centro do país é esperado entre o fim de outubro e meados de novembro. No norte amazônico, pode ficar para depois de dezembro.
O risco imediato está na soja semeada cedo. O documento menciona possibilidade de falhas de germinação e necessidade de replantio. E o plantio está adiantado: a Conab apontou 30,1% da área nacional semeada, ante 21,4% um ano antes, com Mato Grosso já em 60,8%.
Na pecuária, o painel prevê perda de água no solo prejudicando pastagens do Centro-Oeste até novembro, menor oferta de forragem e água no semiárido e risco elevado de incêndios em pastagens no Norte.
O elo com a safrinha 2027
O efeito mais tardio pode recair sobre o milho segunda safra. A janela ideal de semeadura depende da colheita da soja. Se a chuva irregular forçar replantios ou adiar a semeadura no Centro-Oeste, a colheita também tende a atrasar, empurrando o milho para um período de maior risco climático. O cenário ganha peso porque a Conab projeta, em seu primeiro levantamento, safra de grãos de 367,1 milhões de toneladas em 2026/27.
O Brasil tem precedente recente. No El Niño 2023/24, o Painel registrou vazões de Tucuruí e Belo Monte a 29% e 32% da média em dezembro de 2023. No Sul, as enchentes de abril e maio de 2024 atingiram 476 dos 497 municípios gaúchos, no que o boletim classificou como o maior desastre por inundação da história do estado.
O que o produtor deve acompanhar
A primeira referência é a discussão da NOAA de 12 de novembro, que dirá se o índice trimestral cruzou a marca de +2,5 °C. Em seguida, vêm os boletins mensais do Painel El Niño e os avisos diários do Inmet. Para a quinta (22) e a sexta-feira (23), o instituto mantém alertas de tempestade no Sul, com nível laranja em áreas do norte, centro e oeste do Paraná, do oeste catarinense, do noroeste gaúcho e do sul de Mato Grosso do Sul. O órgão também avalia a possível formação de um ciclone extratropical a partir de sábado (24).
No campo, os indicadores práticos são umidade do solo antes de semear no Centro-Norte, chuva acumulada na colheita do trigo e o avanço semanal do plantio da Conab. Como lembram os próprios boletins, as projeções sazonais mostram tendências trimestrais, não a chuva de cada fazenda.






