Só 3% da soja plantada no RS e ferrugem asiática já registrada: quanto a chuva vai cobrar do Sul?
Boletim da Emater aponta semeadura abaixo da média histórica, perdas de emergência em lavouras precoces e presença da doença antes mesmo de a maior parte da soja gaúcha ir para o chão

Em 23 de outubro de 2026, o Rio Grande do Sul tinha 3% da área prevista de soja semeada, segundo boletim da Emater/RS-Ascar. A média histórica para a data é de 5%. Em ano normal, a diferença de dois pontos percentuais poderia ser lida como detalhe de calendário. Neste ano, ela vem acompanhada de um aviso que muda o peso do atraso: a Emater já registrou ferrugem asiática no estado.
O problema não é falta de chuva, é excesso
De acordo com a Emater, a umidade elevada do solo e as chuvas frequentes limitaram as janelas de plantio. Temperaturas baixas e pouca insolação desaceleraram o desenvolvimento das lavouras semeadas mais cedo. Nas áreas plantadas no início da janela, houve perdas de emergência após chuvas fortes, ainda que os estandes remanescentes sejam considerados, em geral, satisfatórios.
O Paraná enfrenta o mesmo cenário. O excesso de chuva associado ao El Niño também atrasou a semeadura no estado vizinho, segundo a Forbes Agro.
O milho de primeira safra está em estágio mais avançado no RS: 78% da área estava plantada na data do boletim, em ritmo descrito como irregular, com temperaturas amenas atrasando o crescimento em algumas regiões.
Ferrugem cedo é ferrugem mais cara
A ferrugem asiática é a doença mais destrutiva da soja no Brasil. O fungo se espalha pelo vento e encontra condições ideais justamente em ambientes úmidos, com temperatura moderada e molhamento foliar prolongado, quadro muito próximo do descrito pela Emater para o RS nas últimas semanas.
A presença registrada em um momento em que a maior parte da soja gaúcha nem foi semeada indica que o inóculo está ativo no ambiente antes da implantação das lavouras. Para o produtor, isso costuma significar começar o monitoramento mais cedo, reduzir o intervalo entre aplicações de fungicida e reforçar a rotação de princípios ativos para evitar a seleção de populações resistentes.
O excesso de umidade traz um segundo problema: ele dificulta a entrada de máquinas no campo. Uma aplicação que atrasa uma semana por causa do solo encharcado pode ser a diferença entre controle e perda.
O que está em jogo na safra gaúcha
A Conab estima que o Rio Grande do Sul possa produzir 20,2 milhões de toneladas de soja na safra 2026/27, alta de 8,3% sobre o ciclo anterior, o que colocaria o estado como quarto maior produtor do país, atrás de Mato Grosso, Paraná e Goiás. Para o milho de primeira safra, a projeção é de 6,6 milhões de toneladas, avanço de 10,2%.
São projeções que pressupõem semeadura dentro da janela e sanidade sob controle. O mesmo boletim da Emater já mostra o custo da chuva em outra cultura: a produção de trigo gaúcha está estimada em 2,16 milhões de toneladas, queda de 37,48%, com produtividade de 2.833 quilos por hectare, 5,55% abaixo do ano anterior, e com a ressalva de que pode haver nova revisão para baixo.
Três decisões para os próximos dias
Revisar o posicionamento de cultivares. Com o calendário atrasando, cultivares de ciclo mais curto podem recuperar janela, mas mudam o período de risco no enchimento de grãos. A troca precisa ser feita com o técnico, talhão a talhão.
Montar o programa de fungicida pela presença da doença, não pelo calendário. Com ferrugem já registrada, esperar o estádio tradicional para a primeira aplicação pode sair caro. Monitoramento semanal e coleta de folhas para diagnóstico ajudam a decidir o momento certo.
Simular a safrinha desde já. Soja semeada mais tarde é colhida mais tarde, e isso aperta a janela do milho de segunda safra. Quem trabalha com sucessão deve projetar desde agora as datas de plantio do milho em diferentes cenários.
A Emater atualiza o boletim semanalmente. Os próximos números dirão se o RS consegue recuperar o calendário em novembro ou se o atraso de outubro vai se transformar em perda de potencial.






