Mais de 100 mm até sábado e 330 mm em 15 dias em Foz: quanto a chuva no Paraná ainda vai custar ao produtor?
Nova rodada de temporais com granizo chega ao Sul a partir de quarta-feira, enquanto a soja atrasa e o trigo perde qualidade no campo.

Em apenas 15 dias de outubro, Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, acumulou mais de 330 milímetros de chuva, volume cerca de 50% acima da média de todo o mês. Na quarta-feira (14), a vazão das Cataratas do Iguaçu passou de 15,5 milhões de litros por segundo, e Itaipu abriu calhas adicionais para escoar a água. O retrato do rio cheio é também o retrato do campo paranaense: solo encharcado, plantio da soja atrasado e trigo perdendo qualidade antes de ser colhido.
E a trégua deve ser curta. A previsão indica uma nova rodada de temporais a partir desta quarta-feira (21), com volumes que podem superar 100 milímetros em alguns pontos do Sul até sábado (24).
A previsão: temporais, granizo e nova frente fria
Segundo a meteorologista Patrícia Cassoli, da Meteored, as instabilidades voltam a ganhar força no Sul a partir da metade da semana, com possibilidade de temporais, rajadas de vento e queda de granizo. Os maiores acumulados devem se concentrar no Paraná, em Santa Catarina e no noroeste do Rio Grande do Sul. A metade sul de Mato Grosso do Sul também deve receber volumes expressivos, e uma nova frente fria deve avançar pelo centro-sul por volta de sábado.
Antes da chuva, o frio. Uma massa de ar polar trouxe risco de geada nesta segunda-feira (19) para o norte gaúcho, a serra e o centro de Santa Catarina e áreas do sudoeste, sul, centro e leste do Paraná. Em Bom Jardim da Serra (SC), o amanhecer registrou temperaturas próximas de 0 °C, segundo a Meteored.
O excesso de água não é novidade nesta primavera. Em setembro, 14 estações do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) registraram o maior acumulado para o mês em mais de 25 anos de série, de acordo com o Sistema FAEP.
Soja: plantio travado e conta mais alta
O Deral aponta 39% da área de soja do Paraná semeada ao fim da primeira quinzena de outubro. Para a consultoria AgRural, os trabalhos no estado praticamente travaram. Um produtor de Engenheiro Beltrão e Roncador, no Noroeste, ouvido pela FAEP, relata ter plantado cerca de 30% dos 750 hectares previstos, com atraso estimado em 20 dias: o plantio que terminaria por volta de 25 de outubro deve se estender até perto de 10 de novembro. Em uma das semanas mais críticas, a área recebeu 250 milímetros.
O atraso tem custo. Onde a buva escapou do controle, a reaplicação de herbicida sai por cerca de R$ 200 por hectare, segundo o relato. A FAEP alerta ainda que chuvas intensas podem arrastar sementes e plantas pequenas e que a umidade persistente favorece doenças, com risco de aplicações extras de fungicida e até replantio. Plantio mais tarde também encurta a janela do milho safrinha.
Trigo: o prejuízo aparece na classificação
Para o trigo que ainda está no campo, o problema é qualidade. Produtores relatam queda do peso hectolítrico (PH) e do número de queda (falling number), indicadores usados na classificação comercial. Segundo a FAEP, um falling number baixo derruba a classe do trigo e pode tornar a farinha inapta para panificação, o que reduz o preço recebido. A capacidade de secagem das cooperativas também não tem dado conta do grão úmido.
O mercado já sente. O preço médio do trigo no Paraná, calculado pelo Cepea, fechou a segunda-feira (19) em R$ 1.565,19 por tonelada, queda de 0,38%. No atacado, a média do Deral ficou em R$ 79,24 por saca.
Cana e Sudeste também sentem
A umidade persistente preocupa ainda o setor sucroenergético em São Paulo, que tem dificuldade para avançar com o corte e a moagem da cana. Em São Paulo e no sul de Minas, frentes frias frequentes alternam períodos curtos de tempo firme com novas chuvas, e as temperaturas amenas reduzem a evaporação.
No Matopiba, falta água
O contraste é grande no Norte e Nordeste. No Matopiba, a frente fria do fim de semana deixou acumulados de 30 a 40 milímetros em alguns pontos, com distribuição irregular e insuficiente para recuperar a umidade do solo. No interior do Nordeste, Teresina tinha máxima prevista perto de 39 °C nesta segunda-feira. A expectativa da Meteored é de recuperação gradual a partir da segunda quinzena de outubro.
O que o produtor do Sul deve acompanhar
Nos próximos dias, o ponto central é aproveitar as poucas janelas de tempo firme e acompanhar de perto doenças e plantas daninhas nas lavouras já implantadas. Registrar as perdas e as despesas extras também ajuda nas conversas com seguradoras e agentes de crédito. A FAEP defende um seguro rural mais robusto e políticas públicas que permitam ao produtor atravessar perdas climáticas como as desta primavera.






