Brasil precisa embarcar 17 milhões de toneladas de milho em três meses: Argentina e Irã vão deixar?
Exportações aceleram na terceira semana de outubro, mas seguem 11,8% abaixo de 2025. Hedgepoint já cortou a projeção do ciclo e vê estoques maiores pressionando preços.

O milho brasileiro está correndo contra o relógio. Nos 11 primeiros dias úteis de outubro, o país exportou 2,87 milhões de toneladas do cereal, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A média diária de 260,5 mil toneladas ficou 11,8% abaixo das 295,5 mil toneladas por dia de outubro de 2025. Para fechar a temporada com 38 milhões de toneladas embarcadas, analistas calculam que o Brasil precisaria exportar cerca de 17 milhões de toneladas em apenas três meses.
A conta é do analista Eduardo Vanin, da Agrinvest, em entrevista ao Notícias Agrícolas: seriam necessários aproximadamente 6 milhões de toneladas em novembro, outros 6 milhões em dezembro e cerca de 5 milhões em janeiro.
A terceira semana trouxe fôlego
Há um sinal positivo. Considerando apenas os quatro dias úteis acrescentados na última atualização da Secex, os embarques ficaram perto de 284 mil toneladas por dia, acima do ritmo do início de outubro e da média de setembro. Na parcial anterior, após sete dias úteis, a diferença em relação a 2025 era de 16,3%.
O preço ajuda a receita. O valor médio do milho exportado ficou em cerca de US$ 238,24 por tonelada, 15% acima do mesmo período de 2025. Com isso, mesmo com volume menor, a receita média diária ficou 1,4% acima da registrada um ano antes.
Argentina e Irã mudaram o jogo
A Hedgepoint Global Markets já cortou sua projeção de exportação para a temporada 2025/26, de 41 milhões para 38 milhões de toneladas. A empresa atribui o ritmo mais lento a dois fatores. O primeiro é a concorrência da Argentina, que colheu safra recorde e oferece preços mais competitivos. O segundo é a menor demanda do Irã em meio ao conflito com os Estados Unidos. O Irã foi o maior comprador de milho brasileiro em 2025, com cerca de 9 milhões de toneladas.
Segundo o levantamento de embarques apresentado pela Hedgepoint, agosto e setembro de 2026 somaram 5,1 e 5,4 milhões de toneladas, respectivamente, abaixo dos mesmos meses de 2025. A diferença para as projeções oficiais é grande: no levantamento de outubro, a Conab ainda estimava exportações de 43,9 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26.
Milho que não sai pressiona o preço aqui dentro
Cada tonelada que não embarca fica no mercado interno. A Hedgepoint estima estoques finais de 14,7 milhões de toneladas em 2025/26, alta de 20,5% sobre o ciclo anterior, e alerta para pressão sobre os preços nas principais praças de originação nos últimos meses do ano.
O movimento já aparece nas cotações. O Cepea relata que as quedas se intensificaram, com compradores retraídos e vendedores preocupados com o espaço nos armazéns antes da safra verão. Na segunda-feira (19), o Indicador Esalq/B3 fechou a R$ 64,74 por saca, o contrato de novembro na B3 recuou 0,99%, para R$ 65,91, e o vencimento de dezembro em Chicago caiu 1,53%, para US$ 4,67 por bushel. Em Mato Grosso, o Imea registrou R$ 50,00 por saca em Rondonópolis e R$ 44,00 em Tangará da Serra.
O etanol de milho como válvula
Se a exportação perde força, o consumo interno ganha. A Hedgepoint projeta que o uso de milho para etanol passe de 29 milhões para 34 milhões de toneladas em 2026/27, alta de 17%, com novas usinas entrando em operação. O aumento da mistura obrigatória para E32, em vigor de forma provisória por 180 dias a partir de 1º de agosto, favorece essa expansão.
Para 2026/27, a consultoria projeta safra recorde de 146,5 milhões de toneladas e exportações de 41 milhões, com estoques finais recuando 14%, para 12,6 milhões de toneladas. Esse cenário depende, porém, do clima e da disputa por mercado com a Argentina.
O que acompanhar
As próximas atualizações semanais da Secex vão mostrar se a aceleração da terceira semana de outubro se sustenta. Para o produtor com milho em armazém, o ritmo dos embarques em novembro e dezembro será o principal termômetro de preço até a chegada da safra verão. Quanto mais distante o país ficar dos 6 milhões de toneladas mensais, maior a chance de o excedente pesar sobre as cotações no interior.






