Newcastle em perus tira 14 plantas de SC da China e leva México e Malásia a barrar todo o Brasil: quanto tempo dura o bloqueio?
Foco detectado em exames de rotina numa granja de Nova Itaberaba já levou cinco países a suspender compras, e o prazo de retomada depende de como cada um vai regionalizar a restrição.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), 14 estabelecimentos de Santa Catarina estão impedidos de embarcar carne de aves para a China. O Brasil tem 61 plantas habilitadas a vender frango ao país asiático. A restrição foi comunicada por Pequim na terça-feira (20) e vem depois da confirmação de um foco de doença de Newcastle numa granja comercial de perus de corte em Nova Itaberaba, no Oeste catarinense.
A China ficou só com Santa Catarina, mas outros compradores foram mais longe. Conforme a atualização do Mapa publicada nesta quarta-feira (21), México e Malásia suspenderam as compras de todo o território brasileiro. Arábia Saudita e Chile, assim como a China, limitaram a medida a produtos de origem catarinense.
Um lote sem sintomas
O caso não apareceu por mortalidade nem por sinais clínicos. Segundo a Cidasc, a agência de defesa agropecuária catarinense, o vírus foi identificado em amostras de sangue coletadas no monitoramento de rotina de um lote de cerca de 6 mil perus com 105 dias de vida, já perto do abate. As aves não chegaram a sair da propriedade, de acordo com o Mapa, que comunicou o caso em 19 de outubro.
A granja foi interditada. As aves passam por sacrifício sanitário e são enterradas, e depois vêm a desinfecção das instalações, o descarte de insumos e o vazio sanitário. Num raio de 10 km, 40 equipes vão visitar cerca de 1.600 propriedades com aves comerciais ou de subsistência. As 133 granjas comerciais da área passam por inquérito sorológico, segundo a Cidasc.
O que cada país barrou
As medidas variam de um comprador para outro. Pela lista do Mapa, o México suspendeu aves vivas, carne e miúdos, ovos férteis e pintinhos de até três dias de todo o Brasil. A Malásia barrou carne, produtos cárneos e miúdos de aves de qualquer estado. A Arábia Saudita e a China vetaram carne e produtos cárneos de aves de Santa Catarina. O Chile incluiu na restrição catarinense também ovos férteis e para consumo, pintinhos de um dia e aves ornamentais.
Segundo o Mapa, a carne inspecionada segue segura para consumo.
Por que a China importa mais
Pelo protocolo sanitário entre os dois países, o Brasil é obrigado a suspender os embarques para a China quando confirma Newcastle ou influenza aviária, e cabe a Pequim definir o alcance da restrição, conforme explicou a ABPA à Reuters. Desta vez, a China optou pelo recorte estadual.
O peso do mercado chinês justifica a atenção. Dados do Mapa citados pelo g1 mostram que a China respondeu por cerca de 13,5% da receita das exportações brasileiras de frango entre janeiro e setembro, o equivalente a aproximadamente US$ 1,155 bilhão. Em volume, foram cerca de 420 mil toneladas no período, segundo dados oficiais citados pela Reuters. Pela conta da AgroForte, isso dá uma média de quase 47 mil toneladas por mês. Em número de plantas, Santa Catarina tem 14 das 61 habilitadas, ou 23%.
O precedente gaúcho
O caso lembra o de julho de 2024, quando um foco de Newcastle numa granja de Anta Gorda (RS) levou à suspensão nacional das vendas para a China a partir de 17 de julho. A liberação do restante do país saiu em 12 de agosto, menos de um mês depois. O Rio Grande do Sul, porém, continuou fora da lista chinesa e só voltou a ser habilitado em janeiro de 2026, conforme registraram Band e Compre Rural.
Agora, só Santa Catarina perdeu o mercado chinês. O histórico gaúcho indica, porém, que o estado do foco pode esperar mais pela reabertura.
O que muda para o integrado
Para o produtor do Oeste catarinense, o efeito mais imediato é a biosseguridade. A Cidasc reforçou que é preciso usar água tratada e clorada, guardar a ração em silos protegidos, manter telas sem aberturas e trocar ou higienizar os calçados antes de entrar no aviário. Problemas respiratórios, torcicolo ou aumento da mortalidade devem ser comunicados ao serviço oficial. Trânsito de animais e novos alojamentos dentro do raio só voltam ao normal depois de laudos negativos.
No mercado, a Safras & Mercado avalia que uma restrição longa pode aumentar a oferta de frango e peru em Santa Catarina e pressionar os preços regionais no atacado, num efeito que a consultoria considera limitado e temporário.
O que acompanhar nas próximas semanas
O ponto principal é o resultado da sorologia nas 133 granjas comerciais do raio: novos positivos podem levar compradores a ampliar as restrições. Também vale observar se México e Malásia aceitam regionalizar e reabrir o mercado para os outros estados, se mais países divulgam medidas e quando o Mapa vai pedir à China a reabilitação das 14 plantas, o que depende do encerramento formal do foco. Os números de outubro e novembro da Secex vão mostrar quanto do volume catarinense foi redirecionado para outros destinos.






