Nordeste estreia na China, mas cota de 1,128 milhão de t ameaça repetir o 'fim antecipado' em 2027
A Masterboi embarcou por Suape 27 t de carne bovina de Canhotinho (PE) num momento em que a cota brasileira de 2026 já acabou e a de 2027 cresce só 2%.

A primeira carga de carne bovina do Nordeste rumo à China saiu na sexta-feira, 23 de outubro, num único contêiner de 27 toneladas. O produto veio do frigorífico da Masterboi em Canhotinho, no Agreste de Pernambuco, seguiu para o Porto de Suape e tem como destino Xangai, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). O marco chega a um mercado onde o Brasil já usou toda a sua cota de 2026, e a cota de 2027 aumenta pouco.
Uma porta nova para um rebanho que cresce
A habilitação veio da Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC) e foi confirmada em 29 de setembro, informou o Diario de Pernambuco. De acordo com o MAPA, Canhotinho é hoje a única planta de carne bovina do Nordeste com acesso ao país asiático.
A planta vem crescendo. Em julho, o portal Movimento Econômico noticiou um investimento de R$ 50 milhões que elevou o abate autorizado de 700 para 920 bovinos por dia. Cerca de 70% dos animais vêm de produtores pernambucanos. O MAPA diz que a meta é passar de mil abates diários até o fim de 2026.
O rebanho da região acompanha esse movimento. Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) 2025 do IBGE, divulgada em 30 de setembro, o efetivo bovino do país caiu 1,7%, para 234,3 milhões de cabeças. O Nordeste foi a única região a crescer: alta de 2,2%, para 37,3 milhões de cabeças, o mesmo tamanho do Sudeste. Pernambuco tem 2,8 milhões de cabeças.
Suape no lugar dos portos do Sul e do Sudeste
A saída por Suape conta para quem compra boi no Agreste. O frigorífico fica a uns 200 km do porto. Em abril, Suape contratou uma consultoria de inteligência marítima para buscar novas rotas e encurtar o tempo de trânsito dos perecíveis. Na ocasião, a Masterboi informou ter exportado 11 mil toneladas de carne em 2025 e projetou 13,2 mil t em 2026 e cerca de 16 mil t em 2027.
Cota de 2026 esgotada e alíquota de 67% fora dela
A China aplica desde 1º de janeiro de 2026 uma salvaguarda sobre a carne bovina importada, com cotas por país e duração de três anos, até 31 de dezembro de 2028, segundo análise da Scot Consultoria. O que passa da cota paga 55% a mais. Somado à tarifa normal de 12%, o total chega a 67%, segundo a Forbes Brasil. A revista informou que o Brasil atingiu o limite em 30 de setembro e que a sobretaxa vale desde 1º de outubro. Isso significa que a carga nordestina já entra no país pela alíquota cheia, como registrou O Tempo.
O efeito apareceu nos dados oficiais. Nos 11 primeiros dias úteis de outubro, a Secex registrou 107,83 mil t de carne bovina in natura embarcadas, com média de 9,80 mil t por dia. Em outubro de 2025, a média foi de 14,56 mil t/dia, segundo o Farmnews.
2027 vai repetir o roteiro?
Para a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a cota brasileira passa de 1,106 milhão para 1,128 milhão de toneladas em janeiro de 2027, alta de cerca de 2%. Na feira SIAL, em Paris, segundo a CNN Brasil, o presidente da entidade, Roberto Perosa, disse esperar que o volume acabe antes do fim de 2027. Ele não deu data e afirmou que o ritmo dos primeiros meses vai indicar quando isso acontecerá. Perosa também citou estoques chineses para mais de um ano.
Uma conta simples, feita pela reportagem, mostra o tamanho do aperto. A cota de 2026 durou nove meses. No mesmo ritmo, os 22 mil t a mais de 2027 dariam só cerca de uma semana de embarques. E 1,128 milhão de t é aproximadamente 30% menos do que as 1,6 milhão de t que o Brasil mandou para a China em 2025, dado do MAPA citado pela Forbes Brasil.
Enquanto isso, o preço do boi segue alto no mercado interno. Em 23 de outubro, o Indicador Cepea/Esalq para São Paulo fechou em R$ 381,40 por arroba à vista, alta de 0,22% no dia. A Safras & Mercado registrou negócios a R$ 400 em Franca (SP). A consultoria ressalvou que foram negócios isolados.
O que fazer na fazenda: o pecuarista nordestino ganhou um novo comprador habilitado para a China, mas a vantagem depende de quando o boi é abatido. Se o roteiro de 2026 se repetir, a cota de 2027 deve render mais nos primeiros meses do ano, quando a carne ainda entra com 12% de tarifa. Vale planejar a terminação e conversar com o frigorífico sobre escalas e prêmios para o primeiro semestre. Acompanhe as parciais semanais da Secex desde janeiro: depois que a cota acaba, a China compra menos e a arroba passa a depender mais de outros destinos.






