Cada abacaxi nasce de dezenas de flores e floresce quando o produtor manda: como funciona a indução floral que define a colheita
O abacaxi é um fruto formado pela fusão de muitas flores. No campo, o agricultor usa carbureto de cálcio ou etefon, que liberam gases que imitam um hormônio da planta, para escolher a data da colheita

O abacaxi parece uma única fruta, mas não é. Cada um dos "gomos" hexagonais da casca corresponde a uma flor. Na planta, dezenas de pequenas flores, que podem passar de uma centena, se desenvolvem em espiral ao redor de um eixo central e se fundem à medida que crescem. O resultado é o que a botânica chama de infrutescência, ou fruto composto. A curiosidade, porém, é só o começo. No campo, essa flor é controlada pelo produtor, que decide em que época a planta vai florescer.
A descoberta que veio da fumaça
A técnica tem uma origem inesperada. Em 1903, nos Açores, foi observado que a fumaça provocava a floração antecipada do abacaxi. Décadas depois, em 1932, pesquisadores concluíram que o elemento ativo na fumaça, responsável pela floração, era o etileno, um hormônio vegetal, segundo revisão publicada na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, da Embrapa.
A partir daí, o produtor deixou de depender do acaso. Hoje, dois produtos dominam a indução floral no Brasil: o carbureto de cálcio, que em contato com a água libera acetileno, e o etefon, composto que libera etileno ao se decompor dentro da planta.
Como é feito no campo
Segundo publicação da Embrapa sobre o cultivo de abacaxi no Amazonas, o carbureto pode ser usado na forma sólida, cerca de 1 grama no centro da roseta de folhas quando há água acumulada, ou dissolvido em água em recipiente fechado. O etefon é aplicado diluído, com ureia e uma pequena quantidade de cal, em uma dose de calda despejada no centro de cada planta. A aplicação costuma ser feita no fim do dia ou à noite, quando a planta absorve melhor o produto.
A planta precisa ter atingido o tamanho certo. Induzir cedo demais gera frutos pequenos, rejeitados pelo mercado, como alerta material técnico da plataforma Aegro. Em experimentos da Epamig com abacaxi ornamental, o florescimento apareceu cerca de 41 dias depois da indução.
Por que vale a pena controlar a flor
Sem indução, o florescimento natural tende a ocorrer de forma desigual, estimulado pelo frio e pelos dias mais curtos do inverno, o que espalha a colheita ao longo de meses. Com a indução, o produtor uniformiza a lavoura, planeja a mão de obra e escalona a produção para não colher tudo de uma vez.
O ganho também aparece no calendário comercial. É possível programar a colheita para épocas de melhor preço, como o fim do ano. Estudos da Embrapa já registraram rendimentos superiores a 40 toneladas por hectare em 15 meses após o plantio em sistemas com indução floral.
A química a serviço do calendário
O caso do abacaxi mostra como a fruticultura moderna depende de conhecer a fisiologia da planta. O mesmo etileno que faz o abacaxi florescer é o hormônio que acelera o amadurecimento de bananas e mangas. Entender como ele age permitiu transformar uma planta de florescimento imprevisível em uma cultura de colheita programada.






