Terceiro maior produtor de cerveja do mundo, o Brasil colhe 81 toneladas de lúpulo e consome 7 mil: por que a planta não pega no país?
O país importa cerca de 98% do lúpulo usado pelas cervejarias, em um mercado estimado em R$ 878 milhões por ano. Pesquisas, cervejarias e um projeto de lei tentam transformar o nicho em cadeia produtiva

O Brasil fabrica cerca de 14 bilhões de litros de cerveja por ano e é o terceiro maior produtor da bebida no mundo, atrás apenas de China e Estados Unidos. Um dos quatro ingredientes fundamentais da receita, porém, quase não é cultivado aqui. O país importa cerca de 98% do lúpulo que consome, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior compilados pela Coppe, instituto de pós-graduação e pesquisa em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de acordo com o portal The AgriBiz.
O tamanho da dependência
O retrato mais recente está no Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024, elaborado pela Coppe em parceria com a Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo) e publicado em março de 2026. Segundo o levantamento, o Brasil produziu apenas 81 toneladas de lúpulo, enquanto a demanda interna chegou a aproximadamente 7 mil toneladas. O mercado nacional movimenta cerca de R$ 878 milhões por ano, de acordo com o Correio da Manhã. Para comparação, a produção mundial foi de cerca de 114 mil toneladas em 2024, segundo a Agência Brasil.
Uma planta da família da cannabis
O lúpulo (Humulus lupulus) é uma trepadeira perene da família Cannabaceae, a mesma da cannabis. Na cerveja, as flores femininas, chamadas cones, são responsáveis pelo amargor, pelo aroma e pela estabilidade da bebida. A maior parte da produção mundial está no Hemisfério Norte, em regiões de clima temperado, o que por muito tempo levou à ideia de que a planta não se adaptaria ao Brasil.
O que está mudando
Pesquisas vêm mostrando o contrário, com ajustes de manejo e variedades. A colheita nacional avançou mais de 40% em volume entre 2023 e 2024, segundo a Aprolúpulo, citada pela Bloomberg Línea. Grandes cervejarias também passaram a investir em lúpulo com origem nacional. Segundo Leonardo Penna, especialista em inovação do Grupo Petrópolis, o Brasil conseguiria ser autossuficiente com cerca de 4 mil hectares cultivados, área pequena para os padrões do agro brasileiro.
Na UFRJ, um projeto liderado pela Coppe busca adaptar o cultivo ao clima do país e reduzir a dependência das importações. Segundo o coordenador ouvido pelo The AgriBiz, o maior gargalo não está apenas no campo, mas na falta de infraestrutura para beneficiar e processar o lúpulo com rapidez e qualidade logo após a colheita, etapa decisiva para preservar os aromas.
Política pública em discussão
Na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 4.275/2024 propõe criar a Política Nacional de Incentivo à Produção de Lúpulo de Qualidade, com o objetivo de elevar a qualidade e a oferta do produto nacional, segundo a Agência Câmara.
Oportunidade de nicho
Para o produtor, o lúpulo é uma cultura intensiva, que exige estrutura de condução, irrigação e pós-colheita, e por isso costuma interessar a quem tem área pequena e busca alto valor por hectare. Com demanda interna quase 90 vezes maior que a produção, a distância entre o que o Brasil colhe e o que as cervejarias usam é, ao mesmo tempo, o tamanho do desafio e o tamanho da oportunidade.






