O Pará concentra o açaí do Brasil, mas o paraense paga 83% mais caro em cinco anos: para onde está indo o fruto?
Pesquisa do Dieese mostra que o litro do açaí em Belém subiu 42,47% só entre janeiro e maio de 2026, contra inflação de 3,36%. Entressafra, demanda de fora e exportação disputam o fruto que é base da alimentação local

Em Belém, açaí não é sobremesa. É prato principal, servido com farinha e peixe no almoço. Por isso, cada alta no preço do litro pesa diretamente no orçamento das famílias. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos do Pará (Dieese/PA), o preço do açaí acumulou alta de 83,47% em cinco anos, entre junho de 2022 e maio de 2026, de acordo com o jornal O Liberal.
Uma alta muito acima da inflação
O salto foi ainda mais forte em 2026. Nos cinco primeiros meses do ano, o açaí do tipo médio acumulou alta de 42,47%, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC/IBGE) avançou 3,36% no período, segundo o Dieese/PA. Em maio, o litro do açaí grosso chegou a R$ 59,19 em média na capital, e o do tipo médio, a R$ 41,06, de acordo com o Diário do Pará. Nas feiras livres, o litro do açaí médio variava entre R$ 25 e R$ 40.
Em junho, os preços recuaram com a chegada da safra, mas seguiam com alta acumulada de até 31% no ano, segundo O Liberal.
A força da entressafra
A principal explicação imediata é o calendário. Durante o inverno amazônico, a oferta de frutos cai, e o paneiro, cesto usado para medir o açaí nos portos, chegou a ser negociado a R$ 500 em alguns pontos, segundo o portal DOL. A alta atinge desde os pequenos batedores de bairro até redes de lanchonetes e supermercados.
O Pará produz, o mundo consome
O Pará concentra a maior parte da produção nacional. Em 2024, o estado somava 252 mil hectares de açaí plantado, quase 95% do total do país, segundo dados do IBGE compilados em relatório internacional de mercado. Boletim da Conab sobre o primeiro trimestre de 2026 aponta que o estado responde por cerca de 90% da produção nacional e que o avanço das exportações, impulsionado pela demanda internacional, reforça a sustentação dos preços internos.
Estudos da Embrapa ajudam a dimensionar a disputa pelo fruto. Uma análise da comercialização estimou que cerca de 60% da produção era consumida no próprio Pará, 30% seguia para outros estados, principalmente São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e de 8% a 10% era exportada para outros países. Na região metropolitana de Belém, o consumo chega a 63,1 quilos de fruto por habitante durante a safra, superior ao de laticínios, segundo outra publicação da Embrapa.
O paradoxo do sucesso
O açaí é um dos maiores casos de sucesso de um produto da sociobiodiversidade amazônica. A demanda de fora valorizou o fruto, ampliou áreas de manejo e plantio e aumentou a renda de produtores ribeirinhos. Para o extrativista, os preços do primeiro trimestre ficaram bem acima do mínimo de garantia, segundo a Conab.
Para o consumidor local, porém, a mesma valorização encarece um alimento básico. O desafio para o estado é ampliar a produção, com manejo de açaizais nativos e plantios irrigados que reduzam a dependência da safra, para que o sucesso do açaí no mundo não tire o açaí da mesa de quem sempre viveu dele.






