Defensivo falsificado, semente pirata e usina comprada por facção: o crime organizado atravessou a porteira?
Estudo do Insper Agro Global mapeia como o crime explora do campo ao sistema financeiro. Só nos quatro primeiros meses de 2026, a Receita apreendeu mais de 42 mil toneladas de defensivos ilegais

Durante muito tempo, o crime no campo foi associado ao furto de gado ou ao roubo de máquinas. Hoje, investigações e estudos mostram uma estrutura muito mais sofisticada. Um working paper do Insper Agro Global mapeou como grupos organizados podem explorar diferentes etapas do agronegócio, das terras às sementes, fertilizantes, defensivos, pecuária, equipamentos, transporte, agroindústria e estruturas financeiras, segundo o CompreRural. Entre as vulnerabilidades identificadas estão grilagem, contrabando de defensivos, pirataria de sementes, roubo de cargas, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
Os números do mercado ilegal
As cifras têm naturezas diferentes e não podem ser simplesmente somadas, alerta o próprio estudo. O mercado ilegal de defensivos pode movimentar cerca de R$ 20 bilhões por ano, segundo estimativas setoriais reunidas pelo Insper e citadas pela AgFeed. O Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf) estima que produtos oriundos de contrabando, falsificação, roubo, furto ou importação fraudulenta representam 25% do mercado de defensivos, de acordo com o Canal Rural. Na pirataria de sementes de soja, estudo da CropLife Brasil com a consultoria Céleres estimou perdas de cerca de R$ 10 bilhões por ano.
A fiscalização confirma o tamanho do problema. As apreensões de defensivos ilegais feitas pela Receita Federal ultrapassaram 42 mil toneladas nos quatro primeiros meses de 2026, segundo o SBT News. Investigações apontam produção clandestina no interior de São Paulo, nas regiões de Franca, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, onde criminosos adulteram produtos com princípios ativos obtidos por contrabando, roubo e furto.
As rotas
O contrabando de defensivos costuma seguir a mesma rota do cigarro, saindo do Paraguai em direção principalmente ao Sul e ao Centro-Oeste, segundo coluna do jornal O Hoje. A venda também migrou para o ambiente digital, com anúncios em redes sociais e aplicativos de mensagem, e Goiás aparece como ponto de passagem para outros estados, segundo o Jornal Opção.
Facções dentro da cadeia
O avanço de facções ganhou visibilidade com operações recentes contra o PCC no setor de combustíveis. Segundo a Gazeta do Povo, as investigações apontaram quatro usinas de etanol sob controle do crime organizado e outras duas em processo de aquisição, além de seis fazendas no interior paulista, avaliadas em R$ 31 milhões, mantidas por meio de fundos de investimento, e uma frota de 1,6 mil caminhões.
Quem paga a conta
O prejuízo não é só financeiro. Produtos falsificados ou adulterados não têm eficácia nem segurança garantidas e podem causar perda de lavoura, contaminação e intoxicações. Também afetam a arrecadação: o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade calcula perdas de R$ 20,8 bilhões por ano com pirataria e contrabando de defensivos, segundo a CropLife Brasil. E há o risco de imagem: o estudo do Insper alerta que a infiltração do crime pode ameaçar até as exportações, diante de compradores cada vez mais exigentes com rastreabilidade.
O que está em discussão
No Congresso, uma proposta inclui o roubo, o furto, a receptação e o contrabando de defensivos no rol dos crimes hediondos, o que impede fiança e endurece a progressão de pena. Para o produtor, a recomendação das entidades do setor é direta: comprar apenas em revendas registradas, exigir nota fiscal e desconfiar de preços muito abaixo do mercado. O defensivo barato demais pode sair caro para a lavoura, para a saúde e para a reputação do agro brasileiro.






