Uma abelha grande, um roedor esquecido e a Bolívia na liderança: por que a castanha-do-pará é tão difícil de plantar?
A castanheira depende de abelhas mamangavas para frutificar e da cutia para se espalhar pela floresta. Fora da mata, os plantios comerciais tiveram dificuldade, e o Brasil perdeu para a Bolívia o posto de maior produtor mundial

Ela leva o nome do Pará e é conhecida no exterior como castanha-do-brasil, mas a castanha mais famosa da Amazônia tem uma história de dependência que surpreende até quem trabalha no campo. A castanheira (Bertholletia excelsa) é uma das maiores árvores da floresta, podendo passar de 60 metros de altura, e não consegue produzir sozinha. Para frutificar, precisa de abelhas específicas. Para se espalhar, depende de um roedor distraído.
Só abelha grande abre a flor
A flor da castanheira é fechada e resistente, e apenas abelhas de médio e grande porte, popularmente chamadas de mamangavas, mangavas ou mamangás, conseguem abri-la para alcançar o néctar. Ao fazer isso, carregam o pólen de uma flor para outra. Como a polinização é cruzada, a árvore precisa de outra castanheira por perto, explicou o professor Ricardo Scoles, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em pesquisa sobre o tema orientada com a especialista Márcia Maués, da Embrapa Amazônia Oriental, segundo o Portal Amazônia.
Na pesquisa, realizada em castanheiras em área de pastagem em Oriximiná (PA), foram capturadas cinco espécies de abelhas visitando as flores, entre elas espécies dos gêneros Xylocopa, Eulaema e Centris. Essas abelhas voam quilômetros entre um pouso e outro, o que permite a comunicação entre árvores distantes centenas de metros.
O ouriço e o jardineiro da floresta
Depois de polinizada, a castanheira forma o ouriço, um fruto de casca dura como madeira que pode guardar até 25 sementes. Poucos animais conseguem abri-lo. O mais associado a essa tarefa é a cutia, roedor que rói o ouriço e a casca das sementes para comer a castanha, segundo publicação da Embrapa sobre práticas amigáveis à polinização da espécie.
O detalhe que transforma a cutia em jardineira está no hábito de guardar comida. Ela enterra algumas sementes no solo para comer depois e, às vezes, esquece onde as deixou. Essas sementes esquecidas germinam e dão origem a novas castanheiras, de acordo com material educativo publicado no portal eduCapes. É assim que a floresta se regenera.
Por que plantar é tão difícil
Essa rede de dependências explica parte do desafio dos plantios comerciais. Segundo artigo publicado no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, a produção de castanha sempre dependeu da coleta em castanhais nativos, e os plantios em grandes áreas enfrentaram dificuldades de viabilidade econômica. Sem polinizadores em número suficiente, a árvore floresce, mas frutifica pouco. A expansão da pecuária, da extração de madeira e da mineração também reduziu os castanhais nativos nas últimas décadas.
A Bolívia na frente
Apesar do nome, a castanheira é nativa de toda a Amazônia e ocorre também na Bolívia, no Peru, na Colômbia, na Venezuela e nas Guianas. A extração brasileira declinou a partir da década de 1990, e a Bolívia passou a ocupar a posição de maior produtor mundial, segundo capítulo da Embrapa com base em dados da FAO. O mesmo artigo do Museu Goeldi aponta que, no Brasil, a maior parte da produção passou a ser destinada ao consumo interno.
O que fica para o produtor
A castanha mostra, em escala de floresta, uma lição que vale para muitas lavouras: polinizadores são parte da produção, não um detalhe ambiental. Sistemas agroflorestais que mantêm a vegetação e reduzem o uso de produtos que afetam as abelhas tendem a favorecer a frutificação. Para comunidades extrativistas do Pará e do Amazonas, a castanha segue como fonte de renda, desde que a floresta que a sustenta continue de pé.






