Café cai 6,50 centavos em Nova York, mas sobe até 6,25% no Sul de Minas: o dólar salvou o cafeicultor?
A alta de 8,21% do dólar derrubou o arábica na bolsa e, ao mesmo tempo, levou a saca a R$ 1.772 na Cooxupé. Entenda por que as duas telas dizem coisas opostas

O café arábica fechou a segunda-feira, 26 de outubro, em queda na bolsa de Nova York. O contrato de dezembro de 2026 encerrou a 300,95 centavos de dólar por libra-peso, recuo de 6,50 centavos (-2,1%), segundo a Safras & Mercado. Na mínima do dia, chegou a 294,90 centavos, abaixo da marca psicológica dos 300. O vencimento de março de 2027 perdeu 8,20 centavos e fechou a 285,20.
No mesmo dia, no Sul de Minas, o produtor viu o contrário. A saca de 60 quilos do arábica tipo 6/7 bebida dura foi cotada a R$ 1.772,00 na Cooxupé, em Guaxupé, alta de 5,98%, e a R$ 1.700,00 na Minasul, em Varginha, alta de 6,25%, de acordo com levantamento do Notícias Agrícolas. O conilon tipo 7/8 em Vitória (ES) subiu 0,78%, para R$ 905,00 a saca.
A bolsa caiu, o físico subiu. A explicação está em uma única variável.
O dólar fez as duas coisas ao mesmo tempo
Na mesma segunda-feira, o dólar comercial fechou a R$ 5,403, alta de 8,21%, depois da confirmação da reeleição do presidente Lula. Foi a maior alta diária da moeda americana desde janeiro de 1999. A PTAX do Banco Central ficou em R$ 5,5007 na venda.
Para o café, o efeito tem duas pontas. Em Nova York, um real mais fraco significa que o Brasil, maior produtor e exportador mundial, passa a ter incentivo para vender mais: cada dólar recebido vale mais reais. O mercado internacional antecipa essa oferta maior e derruba o preço em dólar. A Reuters, em texto reproduzido pela Forbes Agro, atribuiu a queda das commodities brasileiras na segunda à desvalorização do real.
No mercado físico brasileiro, a conta é inversa. Uma queda de cerca de 2% em dólar, multiplicada por um câmbio 8% mais alto, ainda deixa o preço em reais maior do que na sexta-feira. Por isso as cooperativas mineiras puderam subir as indicações na casa dos 6%.
O que segurou Nova York de cair mais
A queda poderia ter sido maior. Segundo a Safras & Mercado, a recompra de posições vendidas levou o contrato de dezembro de volta acima dos 300 centavos no fim da sessão. Dois fatores de fundo limitaram as perdas: os estoques certificados de arábica na bolsa de Nova York, que seguem historicamente baixos, e a preocupação com os efeitos do El Niño sobre os países produtores.
Do lado da oferta brasileira, o fluxo já é forte. Dados do Cecafé citados pelo Notícias Agrícolas mostram exportações de cerca de 3,30 milhões de sacas até 22 de outubro, alta de 43,2% sobre o mesmo período do ano passado. A própria análise ressalta, porém, que embarque maior não significa reposição imediata dos estoques certificados da bolsa.
O que isso significa para o cafeicultor
O ganho em reais desta semana é real, mas tem uma fragilidade: ele depende do câmbio se manter no patamar atual. Se o dólar devolver parte da alta, o produtor fica exposto a uma bolsa que já caiu. É o cenário clássico em que vender uma parcela da produção aproveitando a combinação de preço físico alto e câmbio elevado reduz risco sem abrir mão de toda a alta.
Há ainda o custo. O mesmo dólar que eleva o preço da saca encarece fertilizantes e defensivos importados, que pesam no orçamento da próxima safra. Quem ainda não fechou insumos para a florada e o enchimento de 2027 deve refazer a conta com o câmbio novo.
E há o clima. As chuvas recentes ajudaram o início do desenvolvimento da próxima safra brasileira, mas a irregularidade das precipitações e as temperaturas altas seguem no radar, segundo o Notícias Agrícolas. Enquanto essa incerteza persistir, o mercado internacional tende a oscilar mais do que o normal.
O resumo para a semana: a bolsa em dólar diz uma coisa, a cooperativa em reais diz outra. Quem vende café precisa olhar para as duas telas ao mesmo tempo.






