Juros futuros saltam mais de 300 pontos e o mercado troca corte por alta da Selic: o crédito do produtor vai encarecer de novo?
Depois do segundo turno, contratos de DI passaram a projetar Selic perto de 15% no fim de 2027; Copom se reúne em 3 e 4 de novembro com a carteira problemática do agro em R$ 205 bilhões

Há duas semanas, a pergunta no mercado era quanto o corte de juros poderia aliviar o crédito do produtor. Agora, a pergunta mudou de sinal. Depois do resultado do segundo turno, os operadores de juros abandonaram as apostas em novos cortes da Selic e passaram a precificar uma alta, segundo reportagem da Bloomberg Línea publicada em 27 de outubro.
Na segunda-feira (26), os contratos futuros de DI subiram mais de 300 pontos-base, e a B3 precisou ampliar os limites diários de oscilação. Para quem financia custeio, investimento ou estoque, essa curva é o termômetro do dinheiro que vem pela frente.
O que mudou em uma semana
A Selic está em 13,75% ao ano, depois de cinco cortes consecutivos desde março. Antes do segundo turno, os contratos de DI chegaram a projetar a taxa em 12,50% no fim de 2027. Agora, os preços indicam Selic perto de 15% no fim de 2027 e probabilidade majoritária de alta já em dezembro, segundo a Bloomberg Línea. Para a reunião do Copom de 3 e 4 de novembro, a curva indica manutenção.
O Boletim Focus de 26 de outubro ainda mostra o mundo de antes: Selic de 13,25% no fim de 2026 e de 11,75% no fim de 2027, com IPCA de 5,19% para este ano. Mas a coleta foi encerrada na sexta-feira (23), antes do resultado eleitoral, o que torna essas projeções defasadas.
O choque também passou pelo câmbio e pela bolsa. O dólar, que havia fechado a R$ 4,99 na sexta, chegou a R$ 5,60 durante o pregão de segunda. Na quarta-feira (28), fechou a R$ 5,3401, enquanto o Ibovespa caiu 2,68%, para 171.006 pontos, acumulando perda de 16,62% desde segunda, segundo o Campo Grande News. Os investidores cobram sinais de controle de gastos. Na terça (27), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou um projeto para reforçar a meta fiscal de 2027.
Por que isso chega ao campo
Nem todo crédito rural sente a Selic da mesma forma. As linhas equalizadas do Plano Safra têm taxas definidas pelo governo e seguem mais favoráveis, sobretudo para pequenos e médios produtores. Mas o volume desses recursos é limitado, e uma parte crescente do financiamento do agro passa por instrumentos de mercado.
Em julho, o Rabobank já alertava que CPRs, CRAs, LCAs, empréstimos com recursos livres e operações estruturadas tendem a ficar mais caros com juros altos, e que a procura pelas linhas subsidiadas aumenta nesse cenário. Com a curva de DI em alta, o custo desses instrumentos tende a subir rapidamente, já que boa parte deles tem remuneração atrelada ao CDI.
A dívida que já pesava
O novo aperto encontra um produtor já pressionado. A carteira de crédito rural com problemas somava R$ 205,46 bilhões em agosto de 2026, ou 23,8% da carteira do agronegócio, de R$ 864,24 bilhões, segundo dados do Banco Central citados pela Serasa Experian. Um ano antes, eram R$ 140,9 bilhões, ou 17,1%.
Juros mais altos encarecem a rolagem dessa dívida justamente quando o produtor depende de renegociação e alongamento para atravessar a safra.
O que observar até o Copom
Três sinais devem definir o rumo da curva nas próximas semanas: a composição da equipe econômica do novo mandato, incluindo os ministros da Fazenda e da Casa Civil; a tramitação do projeto de reforço fiscal anunciado pela Fazenda; e o comunicado do Copom de 4 de novembro, que dirá se o Banco Central mantém a pausa ou já sinaliza alta. No exterior, o Fed manteve os juros americanos entre 3,75% e 4% na quarta-feira.
O que o produtor pode fazer
Quem tem operação de crédito a contratar para a safra deve comparar com cuidado taxas prefixadas e pós-fixadas: em momentos de curva em alta, uma taxa fixa pode proteger contra novos aumentos. Também vale priorizar as linhas equalizadas enquanto houver recursos disponíveis e evitar alongar dívida em condições indexadas ao CDI sem simular cenários de juros mais altos.
Para o exportador, o dólar mais alto funciona como proteção parcial: melhora o preço em reais da soja, do café e da carne. Mas essa proteção não paga juros. A disciplina de caixa, de novo, vai separar quem atravessa o ciclo de quem fica pelo caminho.






