Pedidos de recuperação judicial no agro caem 20,7% no 2º trimestre: o pior do endividamento rural já passou?
Serasa Experian registra 448 pedidos entre abril e junho, primeira queda para o período desde 2022. Mato Grosso e a soja seguem no topo da lista.

Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio deram um sinal de trégua. Segundo levantamento da Serasa Experian divulgado na segunda-feira (19), o setor registrou 448 pedidos no segundo trimestre de 2026, queda de 20,7% em relação ao mesmo período de 2025. É a primeira redução para um segundo trimestre desde 2022.
A queda também aparece na comparação com o início do ano: no primeiro trimestre, foram 474 pedidos, o que coloca o recuo trimestral em 5,5%. O indicador reúne produtores rurais pessoa física e jurídica e empresas ligadas à cadeia produtiva.
Onde estão os pedidos
Mato Grosso, maior produtor de grãos, oleaginosas e gado do país, segue na liderança, com 107 pedidos no trimestre. Depois vêm Goiás (84), São Paulo (72), Minas Gerais (54) e Paraná (42). Por atividade, o cultivo de soja concentrou 70 solicitações, seguido pela criação de bovinos, com 28.
A distribuição mostra que os pedidos se concentram nos estados e nas atividades de maior peso na produção agropecuária do país, onde também estão os maiores volumes de crédito e de investimento.
Quem está pedindo
Entre os produtores pessoa física, os pedidos caíram 10,5% em relação ao segundo trimestre de 2025, para 197. A queda foi maior entre os produtores pessoa jurídica: 34,2%, para 160 pedidos.
O recorte por porte traz um dado que chama atenção. Os produtores classificados como "sem propriedades", grupo que pode incluir arrendatários, concentraram 70 pedidos, mais que qualquer outra faixa. Em seguida aparecem os grandes proprietários (51), os pequenos (39) e os médios (37). É um sinal de que quem trabalha em terra arrendada, com o custo do arrendamento a pagar e a receita sujeita a preço e clima, segue entre os mais expostos.
Por que caiu
Segundo Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, a retração pode estar relacionada a um período de maior entrada de receitas para parte dos produtores, à sazonalidade da atividade e ao avanço das renegociações com credores. O executivo, porém, pede cautela: é preciso acompanhar se a redução se mantém nos próximos trimestres, já que o ambiente segue desafiador, com custos elevados e crédito mais seletivo.
O que ainda pesa sobre o produtor
Os números de outubro ajudam a entender por que a cautela faz sentido. O Boletim Focus de 19 de outubro mantém a projeção de Selic em 13,25% ao ano no fim de 2026, o que conserva caro o custo de rolagem das dívidas. O relatório Field Crop Margin Outlook 2027, do Rabobank, aponta que parte dos produtores brasileiros carrega endividamento elevado de investimentos feitos em ciclos anteriores e cita índices regionais de inadimplência acima de 8%.
Do lado da receita, os preços dos grãos estão pressionados. Na segunda-feira (19), o Indicador Cepea/Esalq da soja em Paranaguá fechou a R$ 154,24 por saca, e o Indicador Esalq/B3 do milho, a R$ 64,74, ambos em queda. O Cepea atribui o movimento à perspectiva de maior oferta, com a Conab projetando 181,6 milhões de toneladas de soja na safra 2026/27. Ao mesmo tempo, o Rabobank prevê custo operacional do milho cerca de 11% maior no novo ciclo.
Na pecuária, o cenário é diferente: o Indicador do Boi Gordo Cepea/Esalq está em R$ 380,70 por arroba, maior valor nominal da série, o que alivia o caixa de quem tem boi para vender.
O que observar nos próximos trimestres
A queda dos pedidos de recuperação judicial é uma boa notícia, mas ainda não é uma virada. Três sinais vão indicar se o alívio é duradouro: o comportamento dos preços da soja e do milho na colheita de 2027, o ritmo de queda dos juros e o acesso a crédito para quem tem dívidas em renegociação.
Para o produtor, o recado do levantamento é que renegociar cedo e organizar o fluxo de caixa antes do vencimento continua sendo o caminho mais barato. A recuperação judicial ficou menos frequente, mas o endividamento que a alimenta ainda não foi embora.






