Milho perde 10,58% em Chicago e até 6,98% na B3 em outubro: o dólar salvou o preço ou só adiou a queda?
Com a colheita americana avançando e compradores brasileiros abastecidos até o início de dezembro, novembro começa com o cereal tentando sustentar US$ 4,50 por bushel

O milho terminou outubro com duas contas diferentes para o produtor brasileiro. Na Bolsa de Chicago, o contrato dezembro/26 saiu de US$ 5,0075 por bushel em 30 de setembro para US$ 4,4775 em 30 de outubro, queda de 10,58%. Na B3, o novembro/26 recuou 6,68% no mesmo intervalo, de R$ 72,03 para R$ 67,22 por saca, e o janeiro/27 perdeu 6,98%, segundo levantamento do Notícias Agrícolas.
A distância entre as duas bolsas ajuda a explicar por que o mês doeu menos em reais. O dólar à vista fechou 30 de outubro a R$ 5,4460, maior cotação de fechamento de 2026, com alta de 5,27% no mês e de 9,15% na semana seguinte à eleição, segundo a Reuters. A pergunta que fica para novembro é se esse colchão cambial sustenta o preço ou apenas adia um ajuste que Chicago já fez.
O que derrubou Chicago
O principal peso veio da entrada da safra norte-americana. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) informou que 60% da área de milho estava colhida até 25 de outubro, ante 44% uma semana antes. O ritmo ainda ficava abaixo da média histórica de 66%, o que indica que há mais produto por chegar ao mercado.
A demanda não sumiu, mas também não virou o jogo. As vendas líquidas da temporada 2026/27 somaram 1.303.900 toneladas na semana encerrada em 22 de outubro, 15% abaixo da semana anterior e 32% acima da média de quatro semanas. Os embarques efetivos, porém, ficaram em 552.900 toneladas, com recuo de 29% na semana e de 57% sobre a média recente. Nem a produção de etanol dos EUA, de 1,118 milhão de barris diários na semana até 23 de outubro, a maior em cerca de três meses segundo a agência americana de energia (EIA), mudou a direção do mês.
Em entrevista ao Notícias Agrícolas, Chau Hue, da Stag Securities, avaliou que a região de US$ 4,50 chegou a estimular parte da demanda doméstica americana, mas que a competitividade dos EUA no mercado físico e a disputa com Brasil e Argentina ainda podem limitar uma recuperação mais consistente. Na manhã desta segunda-feira (2), por volta das 9h05, o dezembro/26 voltou a US$ 4,5075, alta de 3 cents, em movimento descrito como compra de oportunidade.
Por que a B3 caiu menos
O câmbio devolveu parte do preço em reais e reanimou os negócios. Na última semana de outubro, o novembro/26 na B3 subiu 2,58%, de R$ 65,53 para R$ 67,22, e o janeiro/27 ganhou 1,54%. Já os vencimentos mais longos caíram: o março/27 perdeu 0,36% e o maio/27, 0,29%. A consultoria Agrinvest estimou que a comercialização dos produtores poderia superar 2 milhões de toneladas na semana.
O alívio, porém, não chega igual a todas as praças. Em Campinas (SP), o indicador Cepea marcou R$ 65,64 por saca em 30 de outubro. Em Lucas do Rio Verde (MT), a referência do Imea estava em R$ 42,40, uma diferença de R$ 23,24 por saca entre as duas praças. Para quem produz longe do consumo, o preço de tela conta só parte da história: frete, prêmio de exportação e base regional pesam tanto quanto Chicago.
Comprador abastecido muda a conta de quem segura o grão
Ieda Monteiro, analista da Beyond Agro, afirmou ao Notícias Agrícolas que os compradores domésticos seguem relativamente abastecidos para novembro e o início de dezembro, enquanto parte dos produtores prefere adiar vendas à espera de preços melhores. A analista lembra que a decisão precisa considerar armazenagem, fluxo de caixa e a proximidade da colheita da soja, que disputa espaço nos armazéns.
Há ainda um fator de oferta futura. O Imea informou que o plantio de soja em Mato Grosso chegou a 89,05% da área projetada, contra 76,13% um ano antes e 78,47% na média de cinco anos. Uma soja semeada mais cedo é um dos elementos que o mercado observa ao discutir a possibilidade de uma janela favorável para a safrinha de 2027, o que pode ampliar as expectativas de oferta. A confirmação ainda depende do clima.
O que acompanhar em novembro
Para o produtor, três variáveis devem definir se a recuperação de início de mês tem fôlego: o ritmo dos embarques americanos, a trajetória do dólar diante das incertezas fiscais e o comportamento dos prêmios nos portos brasileiros. Quem ainda tem milho disponível precisa comparar o preço de hoje com o custo de carregar o grão até uma eventual melhora, e não apenas com o valor visto em setembro. Em outubro, o câmbio ajudou. Nada garante que ele fará o mesmo trabalho sozinho em novembro.






